Diz o Massote que o governo Lula ressuscitou o axioma do Jarbas Passarinho: às favas com os escrúpulos.
Pílulas sobre cinema, arte, hqs e cartuns, comentários efêmeros, confissões inconfessáveis, movimentos barrocos, delírios, divagações, elucubrações e exibicionismos baratos.
30/08/2009
Diz o Massote que o governo Lula ressuscitou o axioma do Jarbas Passarinho: às favas com os escrúpulos.
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29/08/2009
26/08/2009
21/08/2009
20/08/2009
19/08/2009
14/08/2009
07/08/2009
03/08/2009
30/07/2009
26/07/2009
24/07/2009
Acabo de traduzir uma entrevista com o sociólogo estadunidense James Petras, muito elucidativa sobre a questão hondurenha. Confiram no blog do Massote: Petras
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23/07/2009
20/07/2009
16/07/2009
11/07/2009
10/07/2009
Acidentes
Saí do banho ontem e quebrei aplicadamente o dedo do pé. Enrolava o pé na toalha para enxugar, quando o pano enfiou-se miseravelmente no espaço entre dedo e outro. A toalha enrolou-se de tal maneira naquele graveto frágil que, quando puxei-a de volta, torci algo lá dentro. Ouvi apenas um ruído seco, o recheio crocante da fina barra de amendoim se quebrando. Somos nossos piores inimigos.
05/07/2009
02/07/2009
Martinho da Vila

Esta é pro blog do meu amigo Zu Moreira, cronista do samba e jornalista do Tempo, entre outras virtudes.
30/06/2009
25/06/2009
Cartola

Este desenho vai pra uma galeria de grandes mestres do samba que eu e meu amigo jornalista Zu Moreira vamos fazer. Visitem o blog do Zu: A casa do samba
24/06/2009
Capítulo 7 de "Rayuela", do Cortázar
"Toco a sua boca, com um dedo toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez a sua boca se entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e desenha no seu rosto, e que por um acaso que não procuro compreender coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que a minha mão desenha em você.
Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de cíclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõem-se, e os cíclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água."
Bueno, em espanhol fica ainda mais bonito...
Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de cíclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõem-se, e os cíclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água."
Bueno, em espanhol fica ainda mais bonito...
Atendendo ao pedido do meu amigo Eugênio, publico o primeiro parágrafo de "Vida y muerte de un traductor de películas", conto que mereceu um prêmio do Instituto Cervantes. Lá vai.
Se apagan las luces. Un haz luminoso atraviesa la negrura hasta la pantalla blanca, donde el gran ojo de pestañas inferiores postizas mira fijamente en mi dirección. La cámara en zoom recula despacio mostrando el ahumado interior del Leche Bar Korova. En el amplio salón azul hay muñecas desnudas, luces de neón color de rosa y chicos tomando leche dopada. Conozco bien ese lugar. Estoy devuelto al viejo mundo de luz y sombra del cine, un mundo extraño y a veces hostil, pero también tierno y voluptuoso. Me quedo bien aquí. Esa es mi realidad, no la otra, de carne, hueso, asfalto, horarios y cuentas por pagar. Lo mío es ese mundo de hombres y mujeres artificiales, esculpido en la materia huidiza del tiempo. (...)
Se apagan las luces. Un haz luminoso atraviesa la negrura hasta la pantalla blanca, donde el gran ojo de pestañas inferiores postizas mira fijamente en mi dirección. La cámara en zoom recula despacio mostrando el ahumado interior del Leche Bar Korova. En el amplio salón azul hay muñecas desnudas, luces de neón color de rosa y chicos tomando leche dopada. Conozco bien ese lugar. Estoy devuelto al viejo mundo de luz y sombra del cine, un mundo extraño y a veces hostil, pero también tierno y voluptuoso. Me quedo bien aquí. Esa es mi realidad, no la otra, de carne, hueso, asfalto, horarios y cuentas por pagar. Lo mío es ese mundo de hombres y mujeres artificiales, esculpido en la materia huidiza del tiempo. (...)
23/06/2009
22/06/2009
16/06/2009
Tive um sonho estranho ontem (como se todos não o fossem). Circulava por um salão onde várias pessoas se aplicavam num teste para participar de um filme nacional. Eu estava completamente nu e conversava numa boa com uma figura qualquer. Quando me dei conta de que aquilo era um lugar e uma situação públicos, falei pra moça: "Isto aqui é um sonho, viu? Posso fazer o que quiser." Continuei circulando quando de repente a cena corta para um corredor (em preto-e-branco) como o de O Processo e lá estão alguns colegas de serviço, encostados às paredes. Eu aceno para um sujeito conhecido, que me devolve o cumprimento, sorrindo. Era o princípio de realidade, pedindo para entrar no sonho. Acordei meio zonzo...
10/06/2009
06/06/2009
Yes, nós temos banana
No Brasil faz-se o chamado filme pornográfico de pobre. Planos longos e tediosos, pouca (ou nenhuma) ação dramática, locações horríveis, montagens deploráveis. Interessa mostrar aquilo em cima daquilo, em planos-detalhe acintosos. Uma sonda ginecológica faria melhor. Mas o que me choca mesmo, o mais das vezes, é ver como tudo se revela tão pobre e simplezinho. Não consigo deixar de pensar na vida miserável daquela "atriz" e em como ela teve de passar o diabo para chegar a fazer o que faz. Não consigo deixar de imaginar, por exemplo, seus dois filhinhos em casa esperando a mamãe trazer pra casa a féria do dia. No pornô brasileiro, é interessante notar, ainda, uma prosaica opção por valores domésticos e nacionais (mais por falta de grana do que por altivez): em vez dos vibradores supermegapower dos americanos, aqui temos humildes cenouras, bananas e patéticos balões introduzidos em moças com caras de "o que é que eu tô fazendo aqui?". Em vez das homéricas orgias ultra-tecnológicas norte-americanas, damos preferência a sexo com galinhas, anões, cavalos e cachorros. Como diria o Paulo Francis: waaaalllllll...
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27/05/2009
25/05/2009
Frase de caminhoneiro das boas
Quem trabalha muito erra muito.
Quem trabalha pouco erra pouco.
Quem não trabalha não erra.
E quem não erra é promovido.
Quem trabalha pouco erra pouco.
Quem não trabalha não erra.
E quem não erra é promovido.
24/05/2009
22/05/2009
Obama Sísifo
21/05/2009
19/05/2009
18/05/2009
17/05/2009
Na boca do povo
Os amigos andaram falando de mim. Vejam só o que o grande Tala escreveu a meu respeito lá no blog dele: homenagem a PB. É lógico que eu gostei, Tala véio! Esqueci de dizer: o Talarico é um artista plástico de primeiríssima grandeza. Um pintor magistral, do que dá prova a belíssima pintura "Pessoas em groove", na minha parede, presente dele. É isso aí, Tala, amigão, obrigado! A Carol, queridíssima amiga e jornalista de primeira, colega de imprensa sindical, também andou falando mal de mim. Carol, você não toma jeito. Valeu! Leiam lá no Blog da Brauer.
16/05/2009
Talarico, gentle giant
Dois metros e meio de gentileza, bom humor e tranquilidade, típicos dos naturais de Juiz de Fora (minha mãezita é de lá): conheci o Talarico na redação do extinto "Felicíssimo", o "único jornal do mundo só de notícias boas". Eu e o Tala jamais concordamos com esse acróstico que o dono do jornal teimava em pespegar-lhe. Anarquizávamos as doze páginas do mensário com nossas charges venenosas, dando-lhes um caráter mais crítico do que felizinho de merda. Provavelmente isso gerou o ódio gratuito do chefe pelo Tala e a sua consequente demissão. Fiquei lá até o "Felicíssimo" fechar (eu e o cozinheiro geralmente somos os últimos a deixar o navio). Mas a amizade com o Tala se conservou. Certa vez, protagonizamos um episódio curioso: a antevéspera da morte do Tostão, um anão cabeçudo e de olhos esbugalhados que vendia jornais no Maleta. Saímos do "Felicíssimo" e fomos beber no Lucas, quando apareceu o Tostão, vociferando as últimas manchetes do "Diário da Tarde". Bêbados, caricaturizamos a figura folclórica na toalha do bar. Qual não foi a nossa surpresa ao deparar, no dia seguinte, com o obituário do anão, numa sarjeta da rua da Bahia, morto pelo paralelepípedo de um mendigo! Depois disso, eu e o Tala bebemos juntos em muitos outros lugares e ocasiões: em Juiz de Fora, Ouro Preto e BH (ganhei dele um quadro maravilhoso: "Pessoas em groove"). Só perdi o contato com o Tala quando ele se mudou para Porto Seguro com uma garota. A moça viciou-se em crack e o deixou sem casa e sem rumo (mas não sem humor), pelo que acabou voltando a BH. Sei que se casou e hoje vive contente e feliz em Juiz de Fora com mulher e filha, de onde comanda seu blog . É como dizia meu pai: ninguém nasce em Juiz de Fora impunemente.
15/05/2009
Diccionário de amenidades del español
Alto: dice de alguien de gran estatura. Sirve todavía para calificar alguien que se emborracha.
Armario: mueble dotado de cajones que guardan ropas, zapatos, secretos y, en ciertos casos, cadáveres.
Boda: cosa que no solamente idiotas suelen hacer.
Cartas: se escriben para mentir de manera muy elegante.
Comunista: especie en extinción. Todavía hay algunos. Confundidos por capitalistas con todos los que luchan por el bien comun.
Nadar: algo que se hace bajo el agua y que no es sexo.
Ordenador: máquina con botones, hilos, teclado y cabos, que sirve también para desordenar, especialmente si no la tenemos.
Política: muchas veces se cambia para quedarse absolutamente la misma.
Teléfono: instrumento utilizado para hablar de la vida ajena con la máxima descripción.
Votar: algo de que nos arrepentimos tan luego vemos el idiota que acabamos de elegir.
Armario: mueble dotado de cajones que guardan ropas, zapatos, secretos y, en ciertos casos, cadáveres.
Boda: cosa que no solamente idiotas suelen hacer.
Cartas: se escriben para mentir de manera muy elegante.
Comunista: especie en extinción. Todavía hay algunos. Confundidos por capitalistas con todos los que luchan por el bien comun.
Nadar: algo que se hace bajo el agua y que no es sexo.
Ordenador: máquina con botones, hilos, teclado y cabos, que sirve también para desordenar, especialmente si no la tenemos.
Política: muchas veces se cambia para quedarse absolutamente la misma.
Teléfono: instrumento utilizado para hablar de la vida ajena con la máxima descripción.
Votar: algo de que nos arrepentimos tan luego vemos el idiota que acabamos de elegir.
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14/05/2009
08/05/2009
Frase da semana
Do meu orientador: "Filme pornô é aquele no qual os talentos são medidos com fita métrica."
06/05/2009
Gostei tanto que resolvi postar
QUANDO SE TEM DOUTORADO
O dissacarídeo de fórmula C12H22O11, obtido através da fervura e da evaporação de H2O do líquido resultante da prensagem do caule da gramínea Saccharus officinarum, (Linneu, 1758) isento de qualquer outro tipo de processamento suplementar que elimine suas impurezas, quando apresentado sob a forma geométrica de sólidos de reduzidas dimensões e restasretilíneas, configurando pirâmides truncadas de base oblonga e pequena altura, uma vez submetido a um toque no órgão do paladar de quem se disponha a um teste organoléptico, impressiona favoravelmente as papilas gustativas, sugerindo impressão sensorial equivalente provocada pelo mesmo dissacarídeo em estado bruto, que ocorre no líquido nutritivo da alta viscosidade, produzindo nos órgãos especiais existentes na Apis mellifera.(Linneu, 1758) No entanto, é possível comprovar experimentalmente que esse dissacarídeo, no estado físico-químico descrito e apresentado sob aquela forma geométrica, apresenta considerável resistência a modificar apreciavelmente suas dimensões quando submetido a tensões mecânicas de compressão ao longo do seu eixo em conseqüência da pequena capacidade de deformação que lhe é peculiar. *
QUANDO SE TEM MESTRADO
A sacarose extraída da cana de açúcar, que ainda não tenha passado pelo processo de purificação e refino, apresentando- se sob a forma de pequenos sólidos tronco-piramidais de base retangular, impressiona agradavelmente o paladar, lembrando a sensação provocada pela mesma sacarose produzida pelas abelhas em um peculiar líquido espesso e nutritivo. Entretanto, não altera suas dimensões lineares ou suas proporções quando submetida a uma tensão axial em conseqüência da aplicação de compressões equivalentes e opostas.
QUANDO SE TEM GRADUAÇÃO
O açúcar, quando ainda não submetido à refinação e, apresentando- se em blocos sólidos de pequenas dimensões e forma tronco-piramidal, tem sabor deleitável da secreção alimentar das abelhas; todavia não muda suas proporções quando sujeito à compressão.
QUANDO SE TEM ENSINO MÉDIO
Açúcar não refinado, sob a forma de pequenos blocos, tem o sabor agradável do mel, porém não muda de forma quando pressionado.
QUANDO SE TEM ENSINO FUNDAMENTAL
Açúcar mascavo em tijolinhos tem o sabor adocicado, mas não é macio ou flexível.
QUANDO NÃO SE TEM ESTUDO
Rapadura é doce, mas não é mole, não!
(*) Enviado pelo Eugênio, meu chapa
O dissacarídeo de fórmula C12H22O11, obtido através da fervura e da evaporação de H2O do líquido resultante da prensagem do caule da gramínea Saccharus officinarum, (Linneu, 1758) isento de qualquer outro tipo de processamento suplementar que elimine suas impurezas, quando apresentado sob a forma geométrica de sólidos de reduzidas dimensões e restasretilíneas, configurando pirâmides truncadas de base oblonga e pequena altura, uma vez submetido a um toque no órgão do paladar de quem se disponha a um teste organoléptico, impressiona favoravelmente as papilas gustativas, sugerindo impressão sensorial equivalente provocada pelo mesmo dissacarídeo em estado bruto, que ocorre no líquido nutritivo da alta viscosidade, produzindo nos órgãos especiais existentes na Apis mellifera.(Linneu, 1758) No entanto, é possível comprovar experimentalmente que esse dissacarídeo, no estado físico-químico descrito e apresentado sob aquela forma geométrica, apresenta considerável resistência a modificar apreciavelmente suas dimensões quando submetido a tensões mecânicas de compressão ao longo do seu eixo em conseqüência da pequena capacidade de deformação que lhe é peculiar. *
QUANDO SE TEM MESTRADO
A sacarose extraída da cana de açúcar, que ainda não tenha passado pelo processo de purificação e refino, apresentando- se sob a forma de pequenos sólidos tronco-piramidais de base retangular, impressiona agradavelmente o paladar, lembrando a sensação provocada pela mesma sacarose produzida pelas abelhas em um peculiar líquido espesso e nutritivo. Entretanto, não altera suas dimensões lineares ou suas proporções quando submetida a uma tensão axial em conseqüência da aplicação de compressões equivalentes e opostas.
QUANDO SE TEM GRADUAÇÃO
O açúcar, quando ainda não submetido à refinação e, apresentando- se em blocos sólidos de pequenas dimensões e forma tronco-piramidal, tem sabor deleitável da secreção alimentar das abelhas; todavia não muda suas proporções quando sujeito à compressão.
QUANDO SE TEM ENSINO MÉDIO
Açúcar não refinado, sob a forma de pequenos blocos, tem o sabor agradável do mel, porém não muda de forma quando pressionado.
QUANDO SE TEM ENSINO FUNDAMENTAL
Açúcar mascavo em tijolinhos tem o sabor adocicado, mas não é macio ou flexível.
QUANDO NÃO SE TEM ESTUDO
Rapadura é doce, mas não é mole, não!
(*) Enviado pelo Eugênio, meu chapa
04/05/2009
A morte anunciada de Tititu e sua tribo
Na sala apertada, de janelas pequenas e paredes de cal desbotado, sentaram-se índios e não-índios. O ar condicionado velho fazia barulho e não esfriava.
– É muito triste sempre –, me diz a Lucília.
Ela tinha ido a Lábrea para a reunião do DISEI (Distrito de Saúde Indígena) onde as ONGs participam de decisões junto com orgãos públicos. A Lucília está sempre preocupada com a micro-cidade de Lábrea e suas mazelas: corrupção, devassidão extrema, doenças, falta de víveres, só para nomear algumas.
As gentes da Lábrea têm o rosto macilento de muitas malárias e muitas cachaças. Falam sem convicção, parecendo para um novato que não sabem do que dizem. Mas sabem; só não creem mais que algo possa mudar no caos de desserviços que os governos fingem prestar àquele arremedo de cidade.
– É isto que mais me dói –, me diz Lucília na volta. – Os índios baixam a cabeça como animais domesticados à custa de muita dor. O formato da reunião já é excludente. Discute-se como numa repartição pública, e os indígenas não acompanham.
A situação Suruwahá é discutida. Lucília imagina a dificuldade dos técnicos presos no posto distante de tudo. Parece que nem visitar a aldeia eles conseguem. O medo, o salário, menor ainda: – Os índios que se virem para andar até o posto.
E assim foi. No dia 14 de janeiro, Naru caminhou sete horas com a Tititu nos braços, antes gordinha e viva, agora de repente pele seca, sem vida. No posto faz-se uma chamada no rádio para Lábrea. A menina estava péssima o técnico não sabia tratar. Faz gestos e sons de avião para mostrar aos pais que ela deveria ser retirada. A noite caiu, a menina piorou, na madrugada o corpinho esfriou e foi endurecendo aos poucos. Se foi a alma da Tititu para o lugar cheio de bananas fartas e peixes grandes.
Tititu foi escolhida para morrer desde que nasceu. A Ideologia que mantém os Suruwahá impedidos de obter um tratamento médico decente prevê que casos de deformidade congênita têm que ser "eliminados" no nascimento. O pai se recusou a matá-la ao ver a deformidade com que nascera. Não conhecia a Ideologia, ainda se sentia gente. Pediu ajuda, Lucília e Moisés conseguiram retirá-la. Com a oferta de muita gente espalhada pelo Brasil afora, sem ônus ao erário, ela foi levada a São Paulo para ser operada no HC. A Ideologia envia um procurador do MP que proíbe a cirurgia. Os médicos ficam chocados com a proibição, mas não podem fazer nada. A TV divulga a história, a pressão se torna grande, o procurador desiste do impedimento e a menina recebe a operação que a torna gente. Volta à aldeia, precisando de um medicamento mensal. Enquanto a ONG está presente, a medicação chega. Agitamos meio mundo, vamos para a Funasa a cada atraso, envia-se avião arremessando a medicação. Até que a Ideologia nos impede de voltar à aldeia. Saímos de cabeça baixa. Nas mãos da Ideologia, os índios não têm chance. Para o CIMI, a Funai, a Funasa, eles não são gente. São um construto antropológico, um número nos gráficos. A falta do remédio na data certa poderia causar a morte da menina Tititu. Morte já prevista, escrita, desenhada, explicada academicamente na voz estridente da Ideologia. É a inexorável força do darwinismo social.
Tristes só ficamos nós, imaginando o sofrimento de Naru, o pai, e de Kusiumã, a mãe, carregando a filha na mata escura para vê-la esfriar de repente ao som de um forró desafinado no barraco de madeira do posto da Funai.
Profa. Bráulia Inês Ribeiro
Mestre em etnolinguística pela Universidade Federal de Rondônia
30 anos de experiência com comunidades tradicionais amazônicas
A burocracia do governo, que trata os índios como se fossem crianças (está numa lei idiota dessas por aí), opõe obstáculos imensos para a assistência à saúde dos indígenas. A carta acima, da minha irmã, que mora em Rondônia, é uma prova disso. Ela está sendo vítima de perseguição política do governo, que não considera índios como seres humanos, dotados de direitos básicos como o acesso à saúde pública. Envolveu-se nesse quiproquó e agora vai ter de mudar-se para o México. Quosque tandem, Catilina, abutere patientia nostra?
– É muito triste sempre –, me diz a Lucília.
Ela tinha ido a Lábrea para a reunião do DISEI (Distrito de Saúde Indígena) onde as ONGs participam de decisões junto com orgãos públicos. A Lucília está sempre preocupada com a micro-cidade de Lábrea e suas mazelas: corrupção, devassidão extrema, doenças, falta de víveres, só para nomear algumas.
As gentes da Lábrea têm o rosto macilento de muitas malárias e muitas cachaças. Falam sem convicção, parecendo para um novato que não sabem do que dizem. Mas sabem; só não creem mais que algo possa mudar no caos de desserviços que os governos fingem prestar àquele arremedo de cidade.
– É isto que mais me dói –, me diz Lucília na volta. – Os índios baixam a cabeça como animais domesticados à custa de muita dor. O formato da reunião já é excludente. Discute-se como numa repartição pública, e os indígenas não acompanham.
A situação Suruwahá é discutida. Lucília imagina a dificuldade dos técnicos presos no posto distante de tudo. Parece que nem visitar a aldeia eles conseguem. O medo, o salário, menor ainda: – Os índios que se virem para andar até o posto.
E assim foi. No dia 14 de janeiro, Naru caminhou sete horas com a Tititu nos braços, antes gordinha e viva, agora de repente pele seca, sem vida. No posto faz-se uma chamada no rádio para Lábrea. A menina estava péssima o técnico não sabia tratar. Faz gestos e sons de avião para mostrar aos pais que ela deveria ser retirada. A noite caiu, a menina piorou, na madrugada o corpinho esfriou e foi endurecendo aos poucos. Se foi a alma da Tititu para o lugar cheio de bananas fartas e peixes grandes.
Tititu foi escolhida para morrer desde que nasceu. A Ideologia que mantém os Suruwahá impedidos de obter um tratamento médico decente prevê que casos de deformidade congênita têm que ser "eliminados" no nascimento. O pai se recusou a matá-la ao ver a deformidade com que nascera. Não conhecia a Ideologia, ainda se sentia gente. Pediu ajuda, Lucília e Moisés conseguiram retirá-la. Com a oferta de muita gente espalhada pelo Brasil afora, sem ônus ao erário, ela foi levada a São Paulo para ser operada no HC. A Ideologia envia um procurador do MP que proíbe a cirurgia. Os médicos ficam chocados com a proibição, mas não podem fazer nada. A TV divulga a história, a pressão se torna grande, o procurador desiste do impedimento e a menina recebe a operação que a torna gente. Volta à aldeia, precisando de um medicamento mensal. Enquanto a ONG está presente, a medicação chega. Agitamos meio mundo, vamos para a Funasa a cada atraso, envia-se avião arremessando a medicação. Até que a Ideologia nos impede de voltar à aldeia. Saímos de cabeça baixa. Nas mãos da Ideologia, os índios não têm chance. Para o CIMI, a Funai, a Funasa, eles não são gente. São um construto antropológico, um número nos gráficos. A falta do remédio na data certa poderia causar a morte da menina Tititu. Morte já prevista, escrita, desenhada, explicada academicamente na voz estridente da Ideologia. É a inexorável força do darwinismo social.
Tristes só ficamos nós, imaginando o sofrimento de Naru, o pai, e de Kusiumã, a mãe, carregando a filha na mata escura para vê-la esfriar de repente ao som de um forró desafinado no barraco de madeira do posto da Funai.
Profa. Bráulia Inês Ribeiro
Mestre em etnolinguística pela Universidade Federal de Rondônia
30 anos de experiência com comunidades tradicionais amazônicas
A burocracia do governo, que trata os índios como se fossem crianças (está numa lei idiota dessas por aí), opõe obstáculos imensos para a assistência à saúde dos indígenas. A carta acima, da minha irmã, que mora em Rondônia, é uma prova disso. Ela está sendo vítima de perseguição política do governo, que não considera índios como seres humanos, dotados de direitos básicos como o acesso à saúde pública. Envolveu-se nesse quiproquó e agora vai ter de mudar-se para o México. Quosque tandem, Catilina, abutere patientia nostra?
02/05/2009
Degradação ambiental
A mineradora Vale, em consórcio com o Governo de Minas Gerais, está promovendo a destruição da Serra do Tamanduá, um santuário ecológico na região central de Minas Gerais. A empresa vai despejar os resíduos da mina sobre população e bioma locais, tudo com as bençãos do Aético Snif Snif Neves. Vejam o vídeo no blog do Massote: vídeo
29/04/2009
Outro dia, liguei a TV num momento de descuido (não faço isso há tempos) e estavam lá três escritores cinquentões, numa mesa-redonda, debatendo não lembro bem o quê. Como característica comum, exibiam três rotundas barrigas, provavelmente cevadas a muita cerveja, uísque e comida vagabunda, entremeadas a longos dias e noites a serviço da palavra, essa mãe bonita, mas terrivelmente madrasta. Veio-me então à cabeça a razão pela qual muita gente evita o ofício de escritor: medo de pegar barriga. Duvida? Então faça o teste. Passe um dia, um mês, um semestre, um ano, uma década diante da tela de um computador parindo palavras e confira o resultado. Se não tiver cultivado uma boa barriga, estará no mínimo flácido e pelancudo. Para piorar, você terá perdido o tesão de caminhar ou fazer exercício, pela simples e boa razão de que aquilo o fará passar preciosas horas distante do teclado. E, para quem vive da palavra, isso é uma verdadeira temeridade. Portanto, se quer escrever, pode desistir do corpicho e dar muitos vivas à velha e boa barriga!
28/04/2009
Querem saber o que realmente está causando a gripe suína? Deêm uma lida no artigo de um especialista no assunto, originalmente publicado no site SinPermisso e replicado no blog do Massote. A tradução, do espanhol para o português, é deste que vos fala: Gripe suína
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26/04/2009
Informe de actividades y reflexión culinaria
Paso el tiempo mirando las nubes desde hace un mes y eso no es malo. No pratico más la sagrada caminada diaria desde 2007, cuando tuve un cierto problema en las rodillas que me previene de altos impactos con la pierna izquierda (siempre la izquierda). No hago deporte desde que mi vida ha cambiado para seguir la misma, tampoco estoy remotamente preocupado. No me doy con las sustraciones, sobretodo en especie, a veces fumo cigarillos y el viernes me emborracharé de nuevo. Me gusta el café sin azúcar por las mañanas y de pensar en la ominosa política, nacional o internacional, en el fondo, dos (mala)caras de la misma moneda. De momento, medito en lo que haré para comer en el almuerzo (?carne? ?macarrón? ?macarrón con carne?) y, sobretodo, si el verbo comer, en español, se aplica también para las cosas sexuales. Interesante todavía el hecho de que los españoles usan la misma palabra para “cozinha” y “fogão” (“cocina”). De ahora en delante, hay que tener más cuidado al se decir a una chica “séntate en la cocina que ya voy”).
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25/04/2009
23/04/2009

Em primeira mão: a liminar para a desocupação do terreno próximo ao bairro Céu Azul, em Belo Horizonte, foi cassada pela Justiça. O terreno volta então a ser dos antigos moradores, que, organizados em movimento, derrotaram interesses poderosos. Parabéns à Ocupação Dandara!! Leiam mais no blog do Massote.
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