Pílulas sobre cinema, arte, hqs e cartuns, comentários efêmeros, confissões inconfessáveis, movimentos barrocos, delírios, divagações, elucubrações e exibicionismos baratos.
04/07/2012
24/06/2012
22/06/2012
21/06/2012
17/06/2012
31/05/2012
17/05/2012
14/05/2012
Greenaway e a morte do cinema
Greenaway é um agent provocateur. Um artista plástico que leva para a instituição cinema o germe da radicalidade artística contemporânea. Ei-lo aqui, em interessante entrevista, na qual faz outra de suas invectivas contra o cinema industrial, as quais já se tornaram a sua marca. Ao decretar a morte do cinema, ele diagnostica, na verdade, a morte de um tipo de cinema, aquele de cuja existência dependeu todo um ritual de fruição, inseparável do cenário cultural do século XX. Os tempos agora são outros, e toda uma nova atitude em relação às imagens em movimento emergiu com o advento das tecnologias da informação. A internet, a imagem digital e o computador pessoal implodiram não só com hábitos culturais arraigados, mas também a estética do cinemão clássico. Greenaway, porém, faz questão de polemizar sempre que pode. E a estética clássica, bem como o hábito de entrar nas salas escuras para a "imersão diegética" do espectador continuará a existir, enquanto houver gente interessada nesse tipo de projeção. Greenaway sabe disso, embora não diga. A morte à qual ele se refere, portanto, não é a extinção pura e simples do cinema tal como o conhecemos no século XX. Mas a sua transformação em algo novo, em algo que desparece para que outra coisa surja em seu lugar. É isso aí.
Entrevista Greenaway
Entrevista Greenaway
Se o Che lamentava que sua revolução tivesse
derivado no uso, por milhões de jovens mundo afora, de camisetas com a famosa
imagem de seu rosto cabeludo estampada em branco e preto, eu cá lamento o fato
de que essa boa moda hoje se precipita lentamente no oblívio. Nos últimos
tempos, não tenho visto ninguém usar as gloriosas camisetas com a foto do Che,
em plena tomada da Sierra Maestra, capturada pelo olho de Alex Korda num
momento de pura felicidade. A imagem está para o século XX assim como “A
revolução sobre as barricadas”, do pintor francês Eugène Delacroix está para o
século XIX: inseparáveis um do outro. Em golpes de luz e sombra, a Leika de
Korda logrou congelar, no tempo e no espaço, não apenas o clamor por mudanças
em todos os níveis da geração inconformista dos anos 60, mas também a grita por
um mundo, senão melhor, muito diferente, entoada por boa parte da humanidade ao
longo do século passado. Tudo bem que estamos no século XXI e os tempos são
outros. Tudo bem que a ação política não acabou. Mas me dá urticária ver que os
jovens de hoje preferem circular por aí com a efígie horrenda da Lady Gaga
estampada em cores berrantes nas camisetas do que com a foto em preto e
branco do velho e bom guerrilheiro argentino. Espero não seja este um sinal de que a utopia
está ficando fora de moda.
05/05/2012
Assim morrem os pianos
Lá em casa tinha um piano. Chegou a nós como herança da avó materna. Gastas e desalinhadas, as teclas ainda tocavam bem. Não negavam melodias às novas gerações, embora rilhassem os dentes ao toque dos iniciantes. Era um piano temperamental. De ébano luzidio, tinha forro de veludo vermelho por dentro e grandes harpas douradas. Instrumento caseiro mas elegante, não faria feio apresentando-se em grandes concertos. Nos últimos anos, porém, não tocava nem o bife. Estava gasto, velho, triste. Ninguém lá em casa se animou a seguir o caminho da música, e o piano foi ficando meio de lado. Não demorou muito e começou a errar o tom, negar notas, faltar com sustenidos e bemóis. Faz pouco, o piano calou-se para sempre. Especialistas tentaram, em vão, reanimá-lo. Examinaram-no de alto a baixo, sem que seu problema fosse detectado. E não houve quem pudesse tirá-lo daquele profundo e inexplicável mutismo. Terminou seus dias vendido a um Topa Tudo como sucata. Mudo, porém vingado. Quem não soube entendê-lo foi aquele bando de ingratos.
Também recentemente publicado no blog da Alice Salles
Lá em casa tinha um piano. Chegou a nós como herança da avó materna. Gastas e desalinhadas, as teclas ainda tocavam bem. Não negavam melodias às novas gerações, embora rilhassem os dentes ao toque dos iniciantes. Era um piano temperamental. De ébano luzidio, tinha forro de veludo vermelho por dentro e grandes harpas douradas. Instrumento caseiro mas elegante, não faria feio apresentando-se em grandes concertos. Nos últimos anos, porém, não tocava nem o bife. Estava gasto, velho, triste. Ninguém lá em casa se animou a seguir o caminho da música, e o piano foi ficando meio de lado. Não demorou muito e começou a errar o tom, negar notas, faltar com sustenidos e bemóis. Faz pouco, o piano calou-se para sempre. Especialistas tentaram, em vão, reanimá-lo. Examinaram-no de alto a baixo, sem que seu problema fosse detectado. E não houve quem pudesse tirá-lo daquele profundo e inexplicável mutismo. Terminou seus dias vendido a um Topa Tudo como sucata. Mudo, porém vingado. Quem não soube entendê-lo foi aquele bando de ingratos.
Também recentemente publicado no blog da Alice Salles
A vida de Jesus
Jesus e Wilson vieram morar na capital, pensando em tirar sustento do artesanato de latinha de refrigerante. Catavam as latas na rua e as cortavam com uma tesourinha. O resultado eram caprichosos cinzeiros vendidos a um real, quando não trocados por cigarros. Instalaram-se no mezanino externo de um supermercado, a salvo das intempéries. Viviam à base de artesanato e esmolas, num reality show a céu aberto acompanhado com interesse pelos moradores do bairro. Passando por ali de ônibus, várias vezes os surpreendi fazendo comida num fogareiro, em meio a uma coleção de trastes. Soube da morte de Jesus pelo rádio. Teria fumado crack com outro morador de rua, com quem se desentendeu por motivo fútil. Wilson dormia no momento em que Jesus foi derrubado por um pontapé. O artesão quebrou o pescoço no cimento, após despencar de uma altura de dez metros. Sobrou Wilson, que morou no mezanino ainda por algum tempo. Perdi-o de vista depois que fecharam o local com uma grade de aço, encimada por uma espiral de farpas cortantes.
Texto publicado no blog da Alice Salles.
Jesus e Wilson vieram morar na capital, pensando em tirar sustento do artesanato de latinha de refrigerante. Catavam as latas na rua e as cortavam com uma tesourinha. O resultado eram caprichosos cinzeiros vendidos a um real, quando não trocados por cigarros. Instalaram-se no mezanino externo de um supermercado, a salvo das intempéries. Viviam à base de artesanato e esmolas, num reality show a céu aberto acompanhado com interesse pelos moradores do bairro. Passando por ali de ônibus, várias vezes os surpreendi fazendo comida num fogareiro, em meio a uma coleção de trastes. Soube da morte de Jesus pelo rádio. Teria fumado crack com outro morador de rua, com quem se desentendeu por motivo fútil. Wilson dormia no momento em que Jesus foi derrubado por um pontapé. O artesão quebrou o pescoço no cimento, após despencar de uma altura de dez metros. Sobrou Wilson, que morou no mezanino ainda por algum tempo. Perdi-o de vista depois que fecharam o local com uma grade de aço, encimada por uma espiral de farpas cortantes.
Texto publicado no blog da Alice Salles.
31/03/2012
18/01/2012
27/12/2011
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24/05/2011
08/05/2011
15/03/2011
Nos idos de 88
Fiz muitas coisas legais, mesmo antes de entrar pra Escola de Belas Artes. Meu pai dizia que todo artista que entra para escola depois fica inibido. Tinha uma certa razão. Com 15 anos, eu desenhava pro Suplemento Literário do Minas Gerais e fazia charges pra um jornal semanal. Eu ilustrava bem pacas, sem saber absolutamente nada sobre composição. A intuição e as lições do meu pai me guiavam. Ilustrei até uns contos do velho e um poema em homenagem ao Drummond. Uma subida honra. Confiram aqui: Drummond, aqui: Bley Barbosa e aqui: escultor
21/02/2011
Um último cortado
Vou-me embora pra Pasárgada, onde não sou amigo do rei, as palmeiras já escasseiam, e é raro o sabiá que ainda canta. Tenho fundas raízes numa terra de cerrado, caatinga, floresta e mata-atlântica, mas também de carros, prédios, fumaça e muita safadeza. Não me será difícil mergulhar de novo nesse inferno-céu tão conhecido e peculiar. Quero bem àquele chão ainda úbere, apesar de tudo e todos que o sugam e o fazem foder-se muita vez, como o Peru de Vargas Llosa (O ano do bode). Pertenço a essa parte do globo, à qual minha pele está melhor adaptada e onde vivo bem, obrigado, apesar da muita saúva e do sol escaldante. Para ser sincero, não vejo a hora de voltar a solo tupiniquim. Antes, porém, de pegar o avião, permitam-me um adeus graciosamente melancólico, e em português, à Barcelona que me acolheu durante seis meses de sentimentos exacerbados. Resulta incômodo pensar que, daqui a uns dias, não terei mais o metrô da Plaza Espanya (na grafia catalã) e suas linhas vermelha, verde, azul, rosa e amarela levando para os confins e toda parte. Daqui a uns dias não verei mais a proverbial placa do Café O’Canastro, onde bebi meu “cortado” pela manhã, observando furtivamente as ancas das camareiras, desde uma cadeira alta no balcão. Desaparecerão de vista os sonhos em pedra de Gaudí, os delírios plásticos de Miró, Picasso e Dalí, a exatidão urbana de Ildefons Cerdà, o informalismo cinzento de Tápies, o humor e as cores do pós-moderno Mariscal. Também sumirão os largos passeios, as ruas para pedestres, as bicis, a Passeig de Gràcia, a Gran Via, os tranvias, os funiculares, os autobuses vermelhos, as “alubias”, os “albaricots”, a “crema catalana”, os “pollastres”, os “plátanos”, os “jamones”, as “butifarras”, as “granjas”, os locutórios, as “pastisserias” e os avisos no asfalto, lembrando que em Barcelona também se morre, embora isso pareça virtualmente impossível, enquanto se mora aqui. É triste pensar que não deambularei mais pelas velhas Ramblas, com suas temperamentais estátuas vivas, seus carteiristas, seus “helados”, suas paellas para turista e seu charme indiscutível. Não vagarei mais pelo Raval à procura de museus, cafés, pisos e tiendas improváveis. Não me perderei mais pelo Born e pelo bairro gótico, estupefato com suas vetustas igrejas medievais. Não mais admirarei os vultos célebres das praças, as sílfides dos parques, os hércules e as vitórias dos monumentos, os bigodes do gato de Botero, o garoto em bronze de um bebedouro na calle Pelayo, o touro pensador e a divertida girafa da Rambla de Catalunha, os grafittis tímidos, irregulares e circunscritos às portas de correr. Não mais as esguias, sinuosas e almodovarianas espanholas, em diferentes cores e estilos, pisando duramente os tacones no chão, como a dizer “no molesten”. Não mais os assombrosos árabes, sua fala de outro mundo, seus turbantes e suas enfeitadas mulheres, não mais os simpáticos “chinos” e seu furor comercial, não mais os latinos e sua infinita bonomia, não mais os africanos, os romanís, os japoneses, os ingleses, os estadunidenses, os nórdicos e até mesmo os espanhóis, com sua grata cordialidade, após as muitas guerras intestinas. Sobretudo, não mais o “Venga!”, o “Adèus”, o “Sis plau”, o “De acuerdo”, o “Hola”, o “Mira” e o “Vale!”.
Depois de amanhã, sentarei calmamente no Café O’Canastro para um prolongado adeus e um último cortado em homenagem a esta amante espanhola, pela qual evidentemente me apaixonei e a qual fatalmente devo deixar, não obstante nosso tórrido romance. Adios, Barcelona, que te vaya bien!
Depois de amanhã, sentarei calmamente no Café O’Canastro para um prolongado adeus e um último cortado em homenagem a esta amante espanhola, pela qual evidentemente me apaixonei e a qual fatalmente devo deixar, não obstante nosso tórrido romance. Adios, Barcelona, que te vaya bien!
03/02/2011
02/02/2011
25/01/2011
23/01/2011
18/01/2011
17/01/2011
Mercado de la Boquería: um festival de cheiros, cores e paladares. Que se aproveche!
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15/01/2011
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