Pílulas sobre cinema, arte, hqs e cartuns, comentários efêmeros, confissões inconfessáveis, movimentos barrocos, delírios, divagações, elucubrações e exibicionismos baratos.
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17/01/2011
Mercado de la Boquería: um festival de cheiros, cores e paladares. Que se aproveche!
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15/12/2010
Sepia
Toda culinária tem suas excentricidades. No interior de Minas, farofa de tanajura é considerado um fino repasto. Comparo a farofa de tanajura à sepia (sic), um molusco marítimo parecido com a lula, apenas um pouco maior. Sim, trata-se do animal do qual se extrai uma tinta semelhante ao nanquim (de polvo), uma tinta de cor sépia. Fui surpreendido com um prato de sepia a la plancha na mesa do bom restaurante El faro, por 10 euros. Pedi sem saber o que era. Confesso que, num primeiro momento, quis devolver aquelas duas hóstias grandes, brancas e meio duras, fritas em azeite. O primeiro pedaço me deu engulhos. Depois fui me acostumando ao exótico paladar do fruto do mar que, tirante o gosto de alho e sal, não sabe a absolutamente nada. Mastiga-se, mastiga-se, e a coisa mais parece cartilagem de frango em tablete. Mas, que diabo, a sepia é um alimento muito saudável: praticamente não tem gordura, é 80% proteína, tem cálcio, vitamina D, B e outras mais. Virei, pois, um adepto - com reservas - da sepia, até comprei uma bandeja para fazer na frigideira. Só não posso olhar para as ventosas que subsistem em alguns pedaços, para não me lembrar da farofa de tanajura...
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04/12/2010
Um homem, uma cidade
O homem estava disposto a gostar da cidade. Ávidos, seus olhos devoravam a paisagem de aço e concreto armado. Sobretudo a arquitetura exuberante impunha-lhe este admirar-se por um lugar cuja história parecia ter sido dedicada a desvendar o segredo de como dominar a pedra e o aço. Prédios, praças, parques, viadutos, monumentos, locais públicos, o espaço urbano surgia ali enfim subjugado, organizado à proporção dos desejos e necessidades dos homens, assolados pela necessidade também de transcender-se. Ferro, vidro, madeira, todos esses materiais incrivelmente insubmissos assumiam, no skyline da cidade, formas suaves, líquidas, sinuosas. Contemplar os prédios em perfil serpenteando pelo céu plúmbeo era-lhe, pois, um exercício filosófico. Aqueles edifícios haviam sido feitos por uma altíssima habilidade fabril. Podia-se chegar àquele nível de cuidado com o cenário urbano. Muitos séculos de aprendizagem técnica impuseram-se para isso, com efeito. Mas alcançou-se o ponto, o nec plus ultra da ambiência urbana. O mundo, a humanidade podiam ainda salvar-se: Gaudí não estaba brincando de playmobil.
13/11/2010
Sudacas, Orwell e Barcelona
Barcelona, Parc de Can Sabaté: vindo do alto, um ovo explode muito próximo do meu pé. O parque fica entre prédios residenciais dotados de varandas externas (terrazas), como é comum nesta cidade. Afora xenofobia hidrófoba, não há razão que explique esse ovo cair do céu, justo na minha direção, já que galinhas não costumam voar. Examinei-o e não estava podre, logo, também não poderia ser o descarte de um produto vencido, quanto mais em um país de primeiro mundo, onde, presume-se, não se jogam coisas pela janela. Atiraram o ovo em mim, de caso pensado, de uma daquelas varandas, é o que parece. E não me surpreendo com isso: preconceito e horror ao estrangeiro das periferias, aqui, são moeda corrente. Foram-se os tempos de uma Barcelona heróica, universal e cosmopolita, baluarte da liberdade e da cultura modernas e que inclusive mereceu um livro fenomenal de George Orwell, Homenagem à Catalunha . Hoje, a realidade política da cidade é outra, como se nota pela animosidade contra estrangeiros asiáticos, latinos e afros, nas ruas, no comércio e até em lugares públicos. A Barcelona atual está mais para uma província presa a injustificáveis medos abissais do que para a Barcelona dos anos 1930, tomada pela febre anarco-sindicalista magistralmente descrita nas páginas de Orwell.
Comezinho, este horror aos chinos, sudacas, afros e árabes tem origem, sem dúvida, no vigoroso fluxo migratório rumo à Espanha, nos últimos vinte e poucos anos. O senso comum local dá como natural a acintosa discriminação assistida todos os dias aqui, onde esses estrangeiros figuram como origem de todos os males. E o preconceito começa a ser uma prática defendida abertamente por políticos da extrema-direita catalã, que já segrega mão-de-obra de determinadas etnias. Regras mais rígidas para a imigração são, ainda, ponto de pauta obrigatório no debate eleitoral em curso, para políticos barceloneses de todas as colorações. Oxalá a guerra surda contra os imigrantes, hoje feita com ovos, insultos e olhares enviesados, não se torne uma guerra de fato, com tiros ou granadas disparados do alto de prédios contra estrangeiros exóticos…
Um colombiano com o qual divido o aluguel de um apartamento é taxativo: Barcelona é a cidade na qual há mais preconceito contra estrangeiros asiáticos, africanos e sul-americanos. Muito diferentemente de Madrid, onde comunidades árabes, colombianas, peruanas, argentinas, brasileiras, africanas etc. já fazem parte da paisagem cultural. Em geral, os imigrantes vêm para cá para fazer o trabalho que os espanhóis precisam, mas não fazem – ou porque não querem, ou porque não podem . São operários da construção civil, taxistas, garçons, babás, domésticas, faxineiras, fruteiros, barbeiros, lixeiros, balconistas, um sem-número de profissões necessárias ao país e sem dúvida geradoras de riqueza. Esses imigrantes – jovens, em sua grande maioria – costumam ser pacíficos, gentis e calados, pois têm medo de perder o pouco que conquistaram em seus anos de exílio voluntário. Recebem salários baixos para a média espanhola e européia, submetendo-se, não raro, a jornadas de trabalho escorchantes. Abandonam sua cultura, sua gente, e vivem tristes, degredados de si próprios, sonhando com uma volta triunfal à terra natal com muito dinheiro no bolso, sonho que não se realiza nunca, pois o custo de vida aqui é altíssimo e não permite muitas economias. Passado algum tempo de Espanha e conquistada a tão sonhada cidadania (cujo processo leva em torno de cinco anos para se concluir), acabam ficando ou porque já é tarde para partir e reconstruir a vida no país de origem ou porque se adaptaram, por mal dos pecados, à tirânica atmosfera local. No fundo, há sempre aquela vontade de voltar...
Escrevo tudo isto, enfim, porque esta é a gritante realidade com a qual fui imediatamente confrontado aqui, mesmo nesta rápida passagem pela cidade, a encerrar-se tão breve quanto possível. Não digo que não haja uma Barcelona verdadeiramente democrática e solidária como foi sua vocação nos tempos da Guerra Civil. Há de estar viva na memória de alguns barceloneses – certamente mais sensíveis e inteligentes – a fase em que esta cidade representou autêntica resistência ao fascismo. É na nobre história de Barcelona, pátria de artistas universais como Antoní Gaudí, Antoni Tàpies e Joan Miró, berço da resistência aos ditames dos franquismo, portanto, que os imigrantes devem se apoiar para fazer-se respeitar por quem se arroga no direito de ter mais direitos que seus iguais.
Comezinho, este horror aos chinos, sudacas, afros e árabes tem origem, sem dúvida, no vigoroso fluxo migratório rumo à Espanha, nos últimos vinte e poucos anos. O senso comum local dá como natural a acintosa discriminação assistida todos os dias aqui, onde esses estrangeiros figuram como origem de todos os males. E o preconceito começa a ser uma prática defendida abertamente por políticos da extrema-direita catalã, que já segrega mão-de-obra de determinadas etnias. Regras mais rígidas para a imigração são, ainda, ponto de pauta obrigatório no debate eleitoral em curso, para políticos barceloneses de todas as colorações. Oxalá a guerra surda contra os imigrantes, hoje feita com ovos, insultos e olhares enviesados, não se torne uma guerra de fato, com tiros ou granadas disparados do alto de prédios contra estrangeiros exóticos…
Um colombiano com o qual divido o aluguel de um apartamento é taxativo: Barcelona é a cidade na qual há mais preconceito contra estrangeiros asiáticos, africanos e sul-americanos. Muito diferentemente de Madrid, onde comunidades árabes, colombianas, peruanas, argentinas, brasileiras, africanas etc. já fazem parte da paisagem cultural. Em geral, os imigrantes vêm para cá para fazer o trabalho que os espanhóis precisam, mas não fazem – ou porque não querem, ou porque não podem . São operários da construção civil, taxistas, garçons, babás, domésticas, faxineiras, fruteiros, barbeiros, lixeiros, balconistas, um sem-número de profissões necessárias ao país e sem dúvida geradoras de riqueza. Esses imigrantes – jovens, em sua grande maioria – costumam ser pacíficos, gentis e calados, pois têm medo de perder o pouco que conquistaram em seus anos de exílio voluntário. Recebem salários baixos para a média espanhola e européia, submetendo-se, não raro, a jornadas de trabalho escorchantes. Abandonam sua cultura, sua gente, e vivem tristes, degredados de si próprios, sonhando com uma volta triunfal à terra natal com muito dinheiro no bolso, sonho que não se realiza nunca, pois o custo de vida aqui é altíssimo e não permite muitas economias. Passado algum tempo de Espanha e conquistada a tão sonhada cidadania (cujo processo leva em torno de cinco anos para se concluir), acabam ficando ou porque já é tarde para partir e reconstruir a vida no país de origem ou porque se adaptaram, por mal dos pecados, à tirânica atmosfera local. No fundo, há sempre aquela vontade de voltar...
Escrevo tudo isto, enfim, porque esta é a gritante realidade com a qual fui imediatamente confrontado aqui, mesmo nesta rápida passagem pela cidade, a encerrar-se tão breve quanto possível. Não digo que não haja uma Barcelona verdadeiramente democrática e solidária como foi sua vocação nos tempos da Guerra Civil. Há de estar viva na memória de alguns barceloneses – certamente mais sensíveis e inteligentes – a fase em que esta cidade representou autêntica resistência ao fascismo. É na nobre história de Barcelona, pátria de artistas universais como Antoní Gaudí, Antoni Tàpies e Joan Miró, berço da resistência aos ditames dos franquismo, portanto, que os imigrantes devem se apoiar para fazer-se respeitar por quem se arroga no direito de ter mais direitos que seus iguais.
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