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15/12/2010

Sepia

Toda culinária tem suas excentricidades. No interior de Minas, farofa de tanajura é considerado um fino repasto. Comparo a farofa de tanajura à sepia (sic), um molusco marítimo parecido com a lula, apenas um pouco maior. Sim, trata-se do animal do qual se extrai uma tinta semelhante ao nanquim (de polvo), uma tinta de cor sépia. Fui surpreendido com um prato de sepia a la plancha na mesa do bom restaurante El faro, por 10 euros. Pedi sem saber o que era. Confesso que, num primeiro momento, quis devolver aquelas duas hóstias grandes, brancas e meio duras, fritas em azeite. O primeiro pedaço me deu engulhos. Depois fui me acostumando ao exótico paladar do fruto do mar que, tirante o gosto de alho e sal, não sabe a absolutamente nada. Mastiga-se, mastiga-se, e a coisa mais parece cartilagem de frango em tablete. Mas, que diabo, a sepia é um alimento muito saudável: praticamente não tem gordura, é 80% proteína, tem cálcio, vitamina D, B e outras mais. Virei, pois, um adepto - com reservas - da sepia, até comprei uma bandeja para fazer na frigideira. Só não posso olhar para as ventosas que subsistem em alguns pedaços, para não me lembrar da farofa de tanajura...

05/12/2010

Espanha Profunda

Não me perguntem o que é Espanha Profunda. Trata-se mais de um sentimento do que de um conceito facilmente formulável. Este sentimento surge de vez em quando e quando menos se espera. No metrô, por exemplo. Outro dia, no caminho para a Plaza Catalunha, pintou uma senhora cega cantando uma mistura de flamenco com cantochão árabe. Ela dizia repetidamente “no tengo dinero, no tengo casa, por favor, señor, por favor señora, gracias, señor, gracias, señora, no tengo para comer, etc…” Era um canto horrível, mas tão triste e sentido que muita gente se dispôs a dar-lhe uns vinténs. E alguns ainda olharam em volta para os que não deram esmola, com cara de reprovação. Este súbito vislumbre do que seria a Espanha sem as tintas da modernidade high-tech aplicada a este país há coisa de vinte anos, em face da sua incorporação à Comunidade Européia, está nas ruas, todos os dias. Nos velhinhos de boné e bengala dando comida aos pombos, no mendigo filósofo com suas conversas de alto nível com os transeuntes que têm a paciência de ouvi-lo, nos vendedores de castanhas torradas e batatas doces em ruas de circulação burguesa, na voz rouca e pré-cancerosa das mulheres neuróticas e tabagistas inveteradas, no jamón que os homens cortam com prazer sensual nos restaurantes, nos garçons parecidos com toureiros prestes a gritar Venga!, no sujeito imensamente gordo que passa o dia bebendo uísque e cerveja serenamente, apenas trocando de bar, e até nas crianças, que falam em nota e timbre diferentes, como seres de outro mundo. É nos restaurantes, porém, onde esta Espanha Profunda surge com maior frequência. Ouvi de soslaio um sujeito no balcão contar, orgulhoso, como seu irmão devorava uma paella inteira, sozinho. Um outro camarada contou piada infame, inventada na hora, a uma senhora à espera do café. Disse algo como: “sabe qual é a frase filosófica da batata? La salsa me pone a bailar…”

13/11/2010

Sudacas, Orwell e Barcelona

Barcelona, Parc de Can Sabaté: vindo do alto, um ovo explode muito próximo do meu pé. O parque fica entre prédios residenciais dotados de varandas externas (terrazas), como é comum nesta cidade. Afora xenofobia hidrófoba, não há razão que explique esse ovo cair do céu, justo na minha direção, já que galinhas não costumam voar. Examinei-o e não estava podre, logo, também não poderia ser o descarte de um produto vencido, quanto mais em um país de primeiro mundo, onde, presume-se, não se jogam coisas pela janela. Atiraram o ovo em mim, de caso pensado, de uma daquelas varandas, é o que parece. E não me surpreendo com isso: preconceito e horror ao estrangeiro das periferias, aqui, são moeda corrente. Foram-se os tempos de uma Barcelona heróica, universal e cosmopolita, baluarte da liberdade e da cultura modernas e que inclusive mereceu um livro fenomenal de George Orwell, Homenagem à Catalunha . Hoje, a realidade política da cidade é outra, como se nota pela animosidade contra estrangeiros asiáticos, latinos e afros, nas ruas, no comércio e até em lugares públicos. A Barcelona atual está mais para uma província presa a injustificáveis medos abissais do que para a Barcelona dos anos 1930, tomada pela febre anarco-sindicalista magistralmente descrita nas páginas de Orwell.
Comezinho, este horror aos chinos, sudacas, afros e árabes tem origem, sem dúvida, no vigoroso fluxo migratório rumo à Espanha, nos últimos vinte e poucos anos. O senso comum local dá como natural a acintosa discriminação assistida todos os dias aqui, onde esses estrangeiros figuram como origem de todos os males. E o preconceito começa a ser uma prática defendida abertamente por políticos da extrema-direita catalã, que já segrega mão-de-obra de determinadas etnias. Regras mais rígidas para a imigração são, ainda, ponto de pauta obrigatório no debate eleitoral em curso, para políticos barceloneses de todas as colorações. Oxalá a guerra surda contra os imigrantes, hoje feita com ovos, insultos e olhares enviesados, não se torne uma guerra de fato, com tiros ou granadas disparados do alto de prédios contra estrangeiros exóticos…
Um colombiano com o qual divido o aluguel de um apartamento é taxativo: Barcelona é a cidade na qual há mais preconceito contra estrangeiros asiáticos, africanos e sul-americanos. Muito diferentemente de Madrid, onde comunidades árabes, colombianas, peruanas, argentinas, brasileiras, africanas etc. já fazem parte da paisagem cultural. Em geral, os imigrantes vêm para cá para fazer o trabalho que os espanhóis precisam, mas não fazem – ou porque não querem, ou porque não podem . São operários da construção civil, taxistas, garçons, babás, domésticas, faxineiras, fruteiros, barbeiros, lixeiros, balconistas, um sem-número de profissões necessárias ao país e sem dúvida geradoras de riqueza. Esses imigrantes – jovens, em sua grande maioria – costumam ser pacíficos, gentis e calados, pois têm medo de perder o pouco que conquistaram em seus anos de exílio voluntário. Recebem salários baixos para a média espanhola e européia, submetendo-se, não raro, a jornadas de trabalho escorchantes. Abandonam sua cultura, sua gente, e vivem tristes, degredados de si próprios, sonhando com uma volta triunfal à terra natal com muito dinheiro no bolso, sonho que não se realiza nunca, pois o custo de vida aqui é altíssimo e não permite muitas economias. Passado algum tempo de Espanha e conquistada a tão sonhada cidadania (cujo processo leva em torno de cinco anos para se concluir), acabam ficando ou porque já é tarde para partir e reconstruir a vida no país de origem ou porque se adaptaram, por mal dos pecados, à tirânica atmosfera local. No fundo, há sempre aquela vontade de voltar...
Escrevo tudo isto, enfim, porque esta é a gritante realidade com a qual fui imediatamente confrontado aqui, mesmo nesta rápida passagem pela cidade, a encerrar-se tão breve quanto possível. Não digo que não haja uma Barcelona verdadeiramente democrática e solidária como foi sua vocação nos tempos da Guerra Civil. Há de estar viva na memória de alguns barceloneses – certamente mais sensíveis e inteligentes – a fase em que esta cidade representou autêntica resistência ao fascismo. É na nobre história de Barcelona, pátria de artistas universais como Antoní Gaudí, Antoni Tàpies e Joan Miró, berço da resistência aos ditames dos franquismo, portanto, que os imigrantes devem se apoiar para fazer-se respeitar por quem se arroga no direito de ter mais direitos que seus iguais.