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07/12/2010
Tributo ao arroz com feijão
Só quem esteve fora do Brasil por um tempo sabe a falta que faz um bom prato de arroz com feijão. Uma vez no estrangeiro, não há nada que seja remotamente parecido. Há arroz só, ou feijão só (nunca o preto, nunca o roxinho!), mas a sublime combinação entre os dois, nadica de nada. Recentemente, o flamenco, o canto da Sibila e os Castells catalães foram escolhidos pela Espanha para candidatar-se a patrimônios imateriais da humanidade. Daí que faço a sugestão: o Brasil poderia escolher o nosso inefável arroz com feijão para concorrer ao prêmio da Unesco. A fina mistura entre estes dois cereais nobres é digna de figurar entre os melhores pratos da culinária universal. Especialistas já a avalizaram como um dos pratos mais nutritivos que existem. E nada se compara ao sabor de semelhante iguaria, sobretudo quando temperada com alho, sal, cebola, uma folha de louro, algum toucinho e um dedo de pimenta. Lembro-me com saudade de como vão bem arroz, feijão carioca, bife de boi, salada e ovo frito. Ou ainda de uma boa panela de carne cozida com batata, couve, arroz, feijão e torresmo – para os pingófilos, com uma pinga de aperitivo. Chega a dar água na boca. Mas as qualidades do mais brasileiro dos pratos vão ainda mais além: trata-se de um prato democrático, ecuménico, multicultural e cidadão. Alimenta brasileiros de todas as colorações, de todos os sexos, está na mesa do pobre, do rico, do branco, do negro, do amarelo, dos petistas e dos “democratas”. Alho picadinho, sal e uma folha de louro frigindo na gordura… ay, ay, ay.
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05/12/2010
Espanha Profunda
Não me perguntem o que é Espanha Profunda. Trata-se mais de um sentimento do que de um conceito facilmente formulável. Este sentimento surge de vez em quando e quando menos se espera. No metrô, por exemplo. Outro dia, no caminho para a Plaza Catalunha, pintou uma senhora cega cantando uma mistura de flamenco com cantochão árabe. Ela dizia repetidamente “no tengo dinero, no tengo casa, por favor, señor, por favor señora, gracias, señor, gracias, señora, no tengo para comer, etc…” Era um canto horrível, mas tão triste e sentido que muita gente se dispôs a dar-lhe uns vinténs. E alguns ainda olharam em volta para os que não deram esmola, com cara de reprovação. Este súbito vislumbre do que seria a Espanha sem as tintas da modernidade high-tech aplicada a este país há coisa de vinte anos, em face da sua incorporação à Comunidade Européia, está nas ruas, todos os dias. Nos velhinhos de boné e bengala dando comida aos pombos, no mendigo filósofo com suas conversas de alto nível com os transeuntes que têm a paciência de ouvi-lo, nos vendedores de castanhas torradas e batatas doces em ruas de circulação burguesa, na voz rouca e pré-cancerosa das mulheres neuróticas e tabagistas inveteradas, no jamón que os homens cortam com prazer sensual nos restaurantes, nos garçons parecidos com toureiros prestes a gritar Venga!, no sujeito imensamente gordo que passa o dia bebendo uísque e cerveja serenamente, apenas trocando de bar, e até nas crianças, que falam em nota e timbre diferentes, como seres de outro mundo. É nos restaurantes, porém, onde esta Espanha Profunda surge com maior frequência. Ouvi de soslaio um sujeito no balcão contar, orgulhoso, como seu irmão devorava uma paella inteira, sozinho. Um outro camarada contou piada infame, inventada na hora, a uma senhora à espera do café. Disse algo como: “sabe qual é a frase filosófica da batata? La salsa me pone a bailar…”
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