Pílulas sobre cinema, arte, hqs e cartuns, comentários efêmeros, confissões inconfessáveis, movimentos barrocos, delírios, divagações, elucubrações e exibicionismos baratos.
29/04/2008
27/04/2008
Sonhei que estava nas ruas do Centro. Deixei minha pasta em um estacionamento de motos ou coisa parecida e fui ao cinema. Quando voltei, encontrei a pasta, mas o seu conteúdo havia sido roubado. E o que havia na pasta? Tubos e frascos de tinta. O inconsciente funciona por metáforas e não sei o que o sonho pode significar. O que quer que seja, me causa alguma estranheza. Apenas isso.
25/04/2008
21/04/2008
Apenas uma vez
Once (Apenas uma vez) é mais um musical com roupagem nova. A trajetória de um cantor (chato) para formar uma banda (chata) e fazer sucesso serve de pretexto ao filme, que adota um estilão mais “realista”, à diferença de outros que comentei aí embaixo. Tomadas de câmera tremidas, cenas meio escuras, o filme segue a cartilha atual do que se entende hoje por realismo, sem a radicalidade de um, digamos, Robert Bresson, afinal, precisamos faturar. Então o rapaz encontra a garota, mas ambos estão ligados a relacionamentos antigos e não querem rompê-los. Cada um com a sua dor, eles estão empenhados mesmo é em fazer música, o que rendeu ao filme um Oscar de melhor canção (chata). Não quero cobrar verossimilhança a um filme como esse, mas, a certa altura, a moça pobre, em cuja casa vizinhos pobres e imigrantes vêem televisão, aluga nada menos que um estúdio para gravarem um CD. O final, pelo menos, evita o clichê: o cara volta para a ex, e a moça volta para o maridão. A banda, porém, acabará fazendo sucesso, como deve ser num musical (chato).
18/04/2008
17/04/2008
Esse é punk!
Pensei que eu fosse revoltado (é claro, passei dessa fase, agora eu quero mais é ser inserido). Mas deêm uma conferida no gajo: http://vagabundoeburro.blogspot.com/
16/04/2008
Porque odeio o Orkut
Deu na Folha: "o Ministério Público computou 56 mil denúncias de pedofilia nos últimos dois anos. Mais de 80% delas envolvem o serviço de relacionamentos Orkut. (...) Alguns exploradores da pedofilia encontram no Orkut uma ferramenta para instituir clubes virtuais de perversão." Vade retro, tesconjuro!
14/04/2008
Hitch
Para Hitchcock, cinema deve ser sinônimo de eficiência. É a partir dessa eficiência que extrai o máximo para galvanizar a relação filme-espectador, a qual o velho mestre considera o fim último da atividade de um diretor. Num set de filmagem, portanto, atores devem limitar-se a cumprir as determinações ditadas pela seqüência das tomadas de câmera: “atores são como gado”, disse certa vez. Ao rodar um filme, a narração e a fidelidade ao roteiro são a prioridade máxima do cineasta. Aqui, a ação narrativa se desenvolve preferencialmente através da imagem: original do período mudo, Hitchcock sabe que é a imagem quem dita o curso dos acontecimentos, mantendo o espectador informado de tudo quanto se passa no filme, auxiliando-o a compreender a trama. É por aí, finalmente, que se produz o tão celebrado suspense, resultado da emoção gerada no espectador através da montagem dos planos.
10/04/2008
Bispo
Não sei há quanto tempo estou aqui.
No início, cheguei a pensar que estivesse de fato louco.
Hoje, entendo as razões dos homens para me prender.
Transito na linha de tangência entre lucidez e loucura.
Com fio e agulha, reconstruo o mundo ponto por ponto.
Sou um funcionário, antes de mais nada.
Registro o que vejo em minha jornada sobre a Terra.
Elaboro a lista de todos os engenhos humanos,
Costuro o manto das coisas fantásticas, fabulosas, sagradas e bizarras.
Refabrico a galáxia, com seus milhões de estrelas,
planetas, asteróides, nuvens noctulescentes, poeiras,
corpúsculos, nebulosas e buracos negros.
Leio o livro que contém todos os outros.
Escrevo o livro de areia, passo ao mundo dos espelhos.
Nomeio os bichos que entrarão na minha arca.
Tudo que existe e que se move viajará comigo,
rumo ao encontro final com Deus.
Porque d’Ele recebi esta missão.
A missão de reunir as coisas que andavam dispersas ou expatriadas.
O basilisco, os dragões, os macacos, os pássaros de fogo,
a corda dos enforcados, a navalha do barbeiro, a cadeira dos réus,
o ringue dos pugilistas, a proa dos navios, o baton das prostitutas,
os caquinhos do muro, as canecas, as congas dos internados,
a cama, o penico, os aviões, os pássaros, a flor, os amores insepultos,
as garrafas de pinga e de cerveja, o chicote, os tênis, os carros, as bicicletas,
a torneira, em seu capricho industrial, as muitas noites indormidas,
os males do corpo e da mente, os instrumentos, as ferramentas,
as músicas, as mulheres que amei, os homens que não conheci,
tudo isso estará comigo no paraíso.
Vou tecendo com agulha e linha, que retiro de guarda-pós,
Também as palavras – todas as palavras – que dão sentido à vida,
pois elas são, enfim, a vida mesma, em estado latente.
Para uns, isto é substituir Deus. Para mim, é servir Deus.
Afinal, eu sou o Bispo, Arthur Bispo do Rosário,
Senhor do infinito e dos labirintos, escrivão do universo,
arquiteto das pirâmides, das odisséias, dos colossos,
das estátuas e dos monumentos, bibliotecário de Babel,
fundador de Orbis, Tertius e Uqbar, irmão de Funes, o memorioso,
urdidor das preces, das poesias e dos milagres não concretizados,
fabulador de todas as histórias, lidas ou não lidas,
ouvidas ou olvidadas, contadas ou não contadas.
E não sairei de dentro dessas quatro paredes, enquanto não terminar esta obra.
No início, cheguei a pensar que estivesse de fato louco.
Hoje, entendo as razões dos homens para me prender.
Transito na linha de tangência entre lucidez e loucura.
Com fio e agulha, reconstruo o mundo ponto por ponto.
Sou um funcionário, antes de mais nada.
Registro o que vejo em minha jornada sobre a Terra.
Elaboro a lista de todos os engenhos humanos,
Costuro o manto das coisas fantásticas, fabulosas, sagradas e bizarras.
Refabrico a galáxia, com seus milhões de estrelas,
planetas, asteróides, nuvens noctulescentes, poeiras,
corpúsculos, nebulosas e buracos negros.
Leio o livro que contém todos os outros.
Escrevo o livro de areia, passo ao mundo dos espelhos.
Nomeio os bichos que entrarão na minha arca.
Tudo que existe e que se move viajará comigo,
rumo ao encontro final com Deus.
Porque d’Ele recebi esta missão.
A missão de reunir as coisas que andavam dispersas ou expatriadas.
O basilisco, os dragões, os macacos, os pássaros de fogo,
a corda dos enforcados, a navalha do barbeiro, a cadeira dos réus,
o ringue dos pugilistas, a proa dos navios, o baton das prostitutas,
os caquinhos do muro, as canecas, as congas dos internados,
a cama, o penico, os aviões, os pássaros, a flor, os amores insepultos,
as garrafas de pinga e de cerveja, o chicote, os tênis, os carros, as bicicletas,
a torneira, em seu capricho industrial, as muitas noites indormidas,
os males do corpo e da mente, os instrumentos, as ferramentas,
as músicas, as mulheres que amei, os homens que não conheci,
tudo isso estará comigo no paraíso.
Vou tecendo com agulha e linha, que retiro de guarda-pós,
Também as palavras – todas as palavras – que dão sentido à vida,
pois elas são, enfim, a vida mesma, em estado latente.
Para uns, isto é substituir Deus. Para mim, é servir Deus.
Afinal, eu sou o Bispo, Arthur Bispo do Rosário,
Senhor do infinito e dos labirintos, escrivão do universo,
arquiteto das pirâmides, das odisséias, dos colossos,
das estátuas e dos monumentos, bibliotecário de Babel,
fundador de Orbis, Tertius e Uqbar, irmão de Funes, o memorioso,
urdidor das preces, das poesias e dos milagres não concretizados,
fabulador de todas as histórias, lidas ou não lidas,
ouvidas ou olvidadas, contadas ou não contadas.
E não sairei de dentro dessas quatro paredes, enquanto não terminar esta obra.
09/04/2008
Ferro velho blues
Volto ao ar insalubre das ruas sem saída.
Errei por aqui muita vez em busca de mim mesmo.
De tudo, guardei apenas cicatrizes e incertezas.
Olhos e mente sobrecarregados.
Vi o suficiente, vivi o suficiente.
Fiz parte da canalha. Apertei mãos viscosas, beijei faces obesas.
Senti a lâmina fria da mentira e do orgulho.
Chamado de ridículo, cínico e hipócrita,
Agradeci os elogios e rumei em sentido contrário.
Cheguei a pensar que houvesse tempo.
Mas os relógios estão parados, as horas estão paradas.
Como um navio em naufrágio, posso sonhar que ainda vivo.
Mas já é tempo de partir.
Cometi outros, além dos versos da juventude. Este poema (imperdoável) é de 2005, por aí. O sentimento não mudou. A poesia incerta, meio fajuta, também não.
Errei por aqui muita vez em busca de mim mesmo.
De tudo, guardei apenas cicatrizes e incertezas.
Olhos e mente sobrecarregados.
Vi o suficiente, vivi o suficiente.
Fiz parte da canalha. Apertei mãos viscosas, beijei faces obesas.
Senti a lâmina fria da mentira e do orgulho.
Chamado de ridículo, cínico e hipócrita,
Agradeci os elogios e rumei em sentido contrário.
Cheguei a pensar que houvesse tempo.
Mas os relógios estão parados, as horas estão paradas.
Como um navio em naufrágio, posso sonhar que ainda vivo.
Mas já é tempo de partir.
Cometi outros, além dos versos da juventude. Este poema (imperdoável) é de 2005, por aí. O sentimento não mudou. A poesia incerta, meio fajuta, também não.
Quem tem tempo de ler blogs?
Neófito nesta área, percebo que existe perto de um zilhão de blogs na internet. Quem tem tempo de ler tudo isso, mesmo que sejam apenas os de sempre, na listinha dos favoritos?
07/04/2008
04/04/2008
Nietzche, atualíssimo
"...certamente far-se-á bem em separar o suficiente o artista de sua obra para não levá-lo tão a sério quanto a obra. Ele é, decididamente, apenas a condição principal, o seio materno, o húmus, em certos casos, o adubo, o estrume sobre o qual ela brota." Em Genealogia da moral
Você sabia?
Que Pasolini foi co-roteirista de Noites de Cabíria, um dos primeiros filmes de Fellini? Que o grande maestro de Rimini (lê-se "Rímini"), por sua vez, foi assistente de direção em alguns filmes de Rosselini? Que François Truffaut participou da elaboração do roteiro de Acossado, de Jean Luc Godard?
03/04/2008
Greed
Pertenço ao reduzido grupo de privilegiados a ter pousado os olhos em Greed (EUA,1925), de Eric von Stroheim. O filme foi lançado unicamente em LD, há coisa de uns 15 anos, quando essa mídia era caríssima. Para mim, Greed está entre os 10 melhores filmes de todos os tempos; sua versão original teve cerca de 10 horas de duração e foi vista por uma platéia seleta. A cópia lançada comercialmente na época foi editada pelo produtor Irving Thalberg, que "mutilou" o filme, segundo Stroheim, reduzindo-o para 4 horas. Ao ver o resultado, Stroheim amaldiçoou Thalberg e pediu as contas na MGM. Para a indústria, terminou marcado como “artista”, amargando um injusto esquecimento após o advento do filme sonoro. Como bem disse o Gilles Deleuze, “a história do cinema é um grande martiriológio”. Em tempo: por enquanto, não há previsão de distribuição do filme em formato dvd.
01/04/2008
Foucault
Foucault (pronuncia-se "fucô") é um dos meus pensadores preferidos. Vejam o que ele diz para contestar a idéia (metafísica) de que o homem possui uma faculdade superior, suficiente para revelar a verdade sobre todas as coisas: "Não podemos dizer: o homem é isto ou aquilo. O homem não pára de mudar, e não sabemos do que é capaz." O pensamento foucaultiano foi acompanhado também da ação política, e ele enfrentou a polícia em várias ocasiões. E o que ele diz sobre a coragem? "...só existe a coragem física, a coragem é sempre um corpo corajoso." Há muito ainda de e sobre Foucault. Aguardem para breve.
31/03/2008
O cinema sujo de Cassavetes
Antípoda do artifício, o cinema de Cassavetes quer a realidade: quanto mais “real”, melhor. Daí que as suas tomadas mal filmadas, seus planos deselegantes fazem todo sentido para quem interessa-se mais pelo discurso. Em interpretação magistral, Ben Gazarra conduz Morte de um bookmaker chinês para revelar o submundo de uma boate de strip-tease. É um filme sujo, de baixo orçamento, mas eficiente em mostrar algo da realidade norte-americana que o cinemão oficial teima em esconder.
Across the universe
O musical não morreu. Está vivíssimo, por exemplo, no recente Across the universe, de Julie Taymor, e a cada vez que alguém procura homenagear o gênero, até no que ele tinha de chato. Across the universe traz uma releitura de clássicos do repertório Beatle, de maneira despojada e carregando nas tintas do artifício. O resultado é um longa videoclípico, com algumas seqüências inspiradas no grande Busby Berkeley. A história parte de um pretexto bobinho e adolescente: rapaz working-class inglês encontra garota americana loira e linda. Se o roteiro não traz nada que se aproveite, os atores também não convencem: em vozes agudas e anasaladas desfiam, para desespero dos ouvidos, grandes clássicos dos Beatles. Para completar o espetáculo kitsch, dá-lhe excesso de raccords, câmeras lentas e exagero de recursos climáticos.
27/03/2008
Histórias de vida
Encontrei o velho amigo no Maletta. Entre umas e outras, contou ter sido deixado pela mulher, que não queria largar a coca. Deprimido e sem dormir, ele tomou três cartelas de Rivotril. Ainda insone, tomou mais três de Dramin e ligou pro Samu, que explicou não atender casos de suicídio. Foi acordar três dias depois, já no hospital, os médicos fazendo a curetagem.
***
A distinta senhora veio preencher o cadastro do condomínio. Paraense, largou o marido lá para vir cuidar do filho, que faz faculdade e mora sozinho. Visivelmente deprimida, contou, às lágrimas, não ter se adaptado à cidade. Acha tudo e todos muito estranhos. Respondi que moro aqui desde que me entendo por gente e acho a mesma coisa: BH não é para amadores.
***
O amigo me ligou dizendo que vai tocando seu barquinho a vapor. Dores na coluna, infecção urinária, fígado em petição de miséria: é o saldo do divórcio, após vinte anos de casado. Ao consultar-se, o médico, outro separado, disse a ele ser esta a pior experiência que alguém pode passar. Receitou-lhe acupuntura, cerveja sem álcool e outra mulher.
***
Dada a crises psicóticas, a velha senhora foi à igreja Universal. Os pastores viram-na frágil e entenderam de tirar-lhe o demo. Ela diz que foi curada de um problema qualquer nos rins e que agora quer curar-se de um nódulo no pescoço. Vale tudo para evitar as cirurgias pelo SUS.
***
A distinta senhora veio preencher o cadastro do condomínio. Paraense, largou o marido lá para vir cuidar do filho, que faz faculdade e mora sozinho. Visivelmente deprimida, contou, às lágrimas, não ter se adaptado à cidade. Acha tudo e todos muito estranhos. Respondi que moro aqui desde que me entendo por gente e acho a mesma coisa: BH não é para amadores.
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O amigo me ligou dizendo que vai tocando seu barquinho a vapor. Dores na coluna, infecção urinária, fígado em petição de miséria: é o saldo do divórcio, após vinte anos de casado. Ao consultar-se, o médico, outro separado, disse a ele ser esta a pior experiência que alguém pode passar. Receitou-lhe acupuntura, cerveja sem álcool e outra mulher.
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Dada a crises psicóticas, a velha senhora foi à igreja Universal. Os pastores viram-na frágil e entenderam de tirar-lhe o demo. Ela diz que foi curada de um problema qualquer nos rins e que agora quer curar-se de um nódulo no pescoço. Vale tudo para evitar as cirurgias pelo SUS.
25/03/2008
Hitchcock por Godard
O cinema de Godard é talvez a melhor antítese do de Hitchcock. Isso não impediu Godard de prestar reverência ao mestre da eficiência, em sua História(s) do cinema. Nesse sentido, Hitchcock seria aquele que "foi bem-sucedido no ponto em que Júlio César, Napoleão e Hitler fracassaram: exercer o controle sobre o universo". Assino embaixo.
24/03/2008
John Cassavetes
Jazz, externas, relações interraciais, improvisação de atores, existencialismo: tudo isso no filme Sombras, de fins dos anos 1950. Um maravilhoso exemplo de como um visual tosco e despojado (para padrões hollywoodianos) pode se tornar estilo. Não admira Godard colocar John Cassavetes entre os melhores diretores americanos daquela fase. Cassavetes era o cara!
23/03/2008
Não estou lá
Todo mundo conhece os casos famosos de Bob Dylan nos anos 60: apresentou maconha aos Beatles, foi cantor de folk, barbarizou seus fãs ao montar uma banda de rock’n’roll, uniu-se a Joan Baez em canções de protesto, visitou Woody Guthrie antes de o bluesman branco morrer, converteu-se ao cristianismo nos anos 70, etc.. O que o diretor Todd Haynes faz em Não estou lá é alinhavar esses casos de forma que, em cada um deles, Bob Dylan seja encarnado por um ator diferente. As histórias contadas pelo filme não têm qualquer pretensão documental, sendo assumidamente fantasiosas. O resultado é interessante no que procura dar à montagem um ritmo musical, pontuado pela atuação dos diversos Dylans. Com isso, Não estou lá foge à narrativa linear, optando por uma narração fragmentada, opção adequada a um filme que evita a seriedade. O melhor dos episódios é sem dúvida o vivido por Kate Blanchet, irretocável e completamente blasé no papel do bardo norte-americano. Os grandes clássicos de Dylan também marcam presença, de Visions of Joana a Like a rolling stone, o que compensa a ida ao cinema, já que o filme não chega a ser essencial.
22/03/2008
Em Paris
A velha e boa escola francesa de cinema ainda gera bons frutos. Em Paris começa com o narrador lançando a pergunta: pode o amor levar alguém a pular da ponte? O que se verifica no restante do filme é uma resposta afirmativa, expressa pela trajetória de rapaz que, separado, tenta curar-se da depressão pós-rompimento. Um flash back traz o rapaz como refém do amor de sua mulher, que decide os destinos do casal (assim costuma acontecer). Tem-se uma cena de sexo, e a mulher dirige ao partner a pergunta fatídica: por que você sempre toma banho depois de transar comigo? Ela mesma dá a resposta, explicando que seria pelo fato de o rapaz não querer misturar-se ao suor dela, pois a considera suja. Logo, ele não a ama mais e nada haveria a fazer diante disso, a não ser separar. O filme, em suma, trafega pelo binômio sujeira/limpeza para discorrer sobre os caminhos e descaminhos das relações humanas, levando a pensar que amar, afinal, deve ser exatamente sujar-se, lambuzar-se no outro...
20/03/2008
Rambo com botox
O rosto de Sylvester Stallone não foi o único a ter recebido botox para o remake Rambo IV. O roteiro deste ícone da violência nos anos 80 também levou doses cavalares da substância, buscando inflar um argumento já flácido, originalmente criado para justificar o belicismo reaganista. Estica daqui, puxa dali e o resultado é parecido com um bolo ao qual se acrescentou muito fermento. No plot, o sul da Ásia é uma terra de povos rústicos e ignorantes. Grupos rebeldes instauram o caos, matando mulheres e crianças. Os americanos estão lá para fazer o bem, mas são sequestrados pelos rebeldes. Resta a Rambo empunhar a metralhadora e liquidar, sozinho, um exército de asiáticos, a exemplo do que fez com os vietnamitas no segundo episódio da série, para resgatar os americanos. Só que os tempos são outros, e a ação de Bush no Iraque, por exemplo, sofre críticas severas também nos EUA: se Rambo pela quarta vez e com um recauchutado Stallone soa ridículo hoje, também é pra lá de pífio o argumento sobre o qual o filme procura se sustentar. A curiosidade mórbida, porém, leva-me a ver o filme, que mostra o incrível trabalho do tempo, do botox e da cirurgia plástica sobre a imagem mutante de Stallone.
Ladrões de bicicleta
Na Itália do pós-guerra, colador de cartazes de cinema tem a bicicleta roubada e é impedido de trabalhar. O resto do filme gira em torno da busca obstinada do homem pela bicicleta, que metaforiza a passagem para uma vida melhor: sem ela, não há hipótese de futuro. A grande metáfora de Ladrões de bicicleta (1948), entretanto, está nas ruas, que De Sica filma de maneira magistral. Por aqui, circulam as almas esfoladas do que sobrou da Itália, finda a 2º Guerra. É por aqui também que vão transitar os desejos e aflições do povo, mantido a uma distância de segurança pelo cinemão de estúdio, hegemônico àquela altura. Atores não-profissionais, externas, luz natural: o neo-realismo quer a vida lá fora, quer o homem comum nas telas, com tudo que tem de simples e de complexo. Convidado a entrar, o povo gostou e foi ficando: o cinema nunca mais seria o mesmo a partir dali.
19/03/2008
Samuel Fuller em "Acossado"
Na certa, o ilustrado leitor deste blog já terá visto "Acossado", de Godard, ainda que não o considere, como eu, um dos melhores filmes de todos os tempos. Nesse caso, deve se lembrar de uma sequência na qual um escritor pra lá de cínico entrevista-se com repórteres à sua chegada em Paris. Este escritor é o Samuel Fuller, diretor norte-americano de quem falei num post aí embaixo! Vale a pena rever o filme só para ouvir as declarações do personagem, em palavras que Godard pôs em sua boca para ilustrar o que ele mesmo (Godard) pensava de literatura e cinema. Mais adiante, reproduzirei o texto aqui. Aguardem.
18/03/2008
17/03/2008
11/03/2008
Happy ending?
Há quem diga que só faço estórias com finais tristes. Não cabe sentido nessa afirmação. Narrar é como construir uma casa, "brick by brick", diria o Iggy Pop: você organiza a estrutura até um determinado ponto e, quando sente que não há mais nada a dizer, a termina. Uma narrativa é construída a partir de certos pressupostos e isso conduz a certo final, independentemente se triste, melancólico ou feliz. Às vezes, têm-se vários desfechos para uma mesma estória, e opta-se pelo mais expressivo. Outras vezes, a estória organiza-se segundo uma estrutura rígida, utilizando-se de padrões estéreis como o alfabeto, ou números, e nem final isso irá ter, exceto aquele fixado pela última letra, ou pelo último número. Foi o que fiz, quando roteirizei o filme de 5 minutos "Catálogo de biografias efêmeras", com nomes em ordem alfabética, de A a Z. É também o modo pelo qual cineastas como Peter Greenaway costumam montar suas narrativas. Nem tudo, em artes narrativas, tem que ter começo, meio e fim. Principalmente final feliz - deixemos isso para a vida.
10/03/2008
07/03/2008
Lula era a onda
Mais um texto, de 2003, do boletim da universidade. A onda era o mensalão e o tiro no pé do governo Lula. http://www.ufmg.br/boletim/bol1496/segunda.shtml
Uakti solitário
Texto que escrevi em 2002, publicado no boletim da UFMG. Causou espécie e motivou a realização de um documentário, ainda inconcluso. http://http//www.ufmg.br/boletim/bol1388/segunda.shtml
04/03/2008
Uribe
Alguém duvida que o ataque de Uribe às Farc tem o dedo dos Estados Unidos? Se quiserem saber algo mais sobre o presidente Uribe, que a mídia tupiniquim tenta mostrar como modelo, acessem esta matéria, na Newsweek: http://www.newsweek.com/id/54793
03/03/2008
29/02/2008
Franz Mazoputz
28/02/2008
Tempus fugit
Kriptonita
27/02/2008
Samuel Fuller
Todo mundo se lembra de Um Estranho no ninho (One flew over the cuckoo's nest, Milos Forman, 1975), filme que marcou definitivamente a carreira de Jack Nicholson. Aqui, Nicholson faz o papel de um cara normal internado numa clínica de loucos por conta de seu comportamento irreverente. O que pouca gente sabe é que a matriz original desse filme é Paixões que alucinam (Shock corridor, 1963), de Samuel Fuller, diretor considerado por Jean Luc Godard e pelos "jovens turcos" da nouvelle vague entre os melhores em atividade na década de 50. Paixões que alucinam conta a história de um repórter ávido por receber o prêmio Pulitzer. Para tanto, ele se interna voluntariamente num manicômio a fim de descobrir a identidade do assassino de um paciente. Isso não estava nos planos, mas o repórter vai enlouquecendo aos poucos, em razão do tratamento aplicado aos internos da clínica. Ele termina por perder completamente o juízo, não sem antes descobrir, num enfermeiro do sanatório, o assassino que procurava. Afora a trama genial, o filme é povoado de figuras sinistras (como o diretor da clínica, um Caligari redivivo), fazendo uma radiografia dos personagens norte-americanos típicos de meados do século.
26/02/2008
De alma lavada
De alma lavada. Foi a sensação que tive quando vi a matéria na Ilustrada sobre a revista Front. O crítico Pedro Cirne dedicou um parágrafo inteiro à minha história, "Transcurso", o que me deixou nas nuvens. Bem, após todos esses de trabalho duro pelos quadrinhos é muito gratificante ver que alguém está entendendo o recado. Confiram lá: http://www.masquemario.net/images/front19/front-na-folhasp.jpg
24/02/2008
Lamentações de Jeremias
Dediquei perto de 6 anos ao mestrado. Foram 3 anos de imersão no mundo do cinema, para elaborar o projeto, e mais três anos para escrever o trabalho. Bem, o texto final foi elogiadíssimo pela banca e só o que posso dizer é que suei sangue para concluir a escrita. Até ontem ainda estava ligado na tomada, a 220 volts. Agora que volto lentamente ao mundo real, percebo que o mestrado não vale muita coisa aí fora. As pessoas contratam por outras razões e critérios. E o que eu pensei que fosse virar um livro, está a passo de boi. Não larguei o emprego, continuo ganhando uma merreca e também não fui contratado magicamente por uma escola. Respondam depressa: há vida após o mestrado?
Mau humor em gotas, que vaya con dios
Meu último blog, o mauhumoremgotas, morreu de falência múltipla dos órgãos. Em seus extertores, ele começou a ter 20 a 30 visitas diárias. Foi impressionante, nunca tive tanta popularidade. Bem, espero que este blog repita o mesmo sucesso. Alguns posts eu salvei, outros eu perdi irremediavelmente. (Na hora da raiva, a gente joga muita coisa fora.) Mas é isso aí. Longa vida ao Humor à la carte!!
22/02/2008
Confissões de um rocker
Quando eu era menino, havia Stones, Beatles e Ramones tocando no rádio. Os discos ainda eram bolachas de vinil, e música não se parecia com o negócio ruim e escroto de hoje. Meu primeiro disco foi uma coletânea do J.S. Bach, em versão para órgão “moog”. Depois veio um do Kraftwerk. Teve um Led Zepellin que roubei nas Lojas Americanas, na cara de pau. Nos anos 80, o melhor eram as bandas pós-punk, cujas músicas eu ouvia em rádios alternativas. Só fui ter acesso aos discos no final dos anos 90. O “Closer”, do Joy Division, por exemplo, comprei em 1996, num sebo. Foi onde comprei também uma ótima coletânea do Bauhaus. Até hoje me pergunto que fim levou o vocalista do Bauhaus. Na época, ele encarnava o lado maldito do rock. Será que se tornou um senhor gordo e careca, cuidando do seu jardim inglês?
A vida não é ruim quando se têm cigarros de palha, café e os blues do Howlin Wolf. Durante um bom tempo, foi só o que ouvi. “Você misturou a minha bebida com uma lata de corante vermelho do diabo. Aí sentou e assistiu, esperando que eu morresse. Estou te deixando mulher, para não cometer um crime”. É, o cara não teve uma vida fácil.
A vida não é ruim quando se têm cigarros de palha, café e os blues do Howlin Wolf. Durante um bom tempo, foi só o que ouvi. “Você misturou a minha bebida com uma lata de corante vermelho do diabo. Aí sentou e assistiu, esperando que eu morresse. Estou te deixando mulher, para não cometer um crime”. É, o cara não teve uma vida fácil.
Magros e calóricos
Se um dia rolar, "Magros e calóricos": este deverá ser o título de meu próximo livro de charges. Foi a partir da observação cotidiana do comportamento dos políticos que acabei chegando à conclusão de que essa classe pode ser dividida em dois tipos básicos e irrecorríveis: os magros e os calóricos. Ressalvando-se, conforme nota o agudo Nelson Rodrigues, que há canalhas em grande quantidade também entre os magros, a imensa maioria dos vilões da cena política nacional e estrangeira é de figuras nutridas e adiposas (se não são gordos, um dia vão ser: o poder não só corrompe como engorda). E os cartunistas sabem disso muito bem, pelo menos desde a difusão maciça da primeira charge de que se tem notícia, na França (depois eu conto essa história). O mau-caratismo político expressa-se muito eficazmente na superabundância lipídica dos plutocratas e ditadores de plantão. Já ao magro, coitado, é sempre reservado o papel daquele que passa o chapéu, atrás das esmolas miseráveis dos que têm pão na arca... Bem, é isso aí. Tomara que um dia o livro saia. Enquanto a publicação não vem, leio os jornais e recolho material, suficiente para editar um calhamaço. Isso leva tempo, eu sei. Mas a julgar pelo rumo das coisas, um trabalho como esse tão cedo não perderá a atualidade. Embora eu gostaria que perdesse...
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