10/02/2009

Revi o "Yellow submarine" dos Beatles pela enésima vez. Alguns desenhos ainda parecem fantásticos (a animação é soberba, uma obra-prima da psicodelia), mas a impressão geral é que tudo soa um pouco datado. O "peace and love" do filme é puro devaneio, especialmente quando se pensa nas guerras que rolavam na época. Os "azuis" surgem como uma clara referência ao comunismo, embora inconfessada. Isso não seria problema se a antítese aos "azuis" não fosse tão falsamente estável, pacífica, bonitinha e bucólica. (Mais tarde, esse apelo a um mundo nirvânico, lindinho e florido sucumbiria miseravelmente, sob a consciência anárquica dos punks, críticos ferrenhos da monarquia e do capitalismo pós-industrial.) Engraçado, até a música parece agora datada. Os desenhos, entretanto, conservam frescor e genialidade. Sabem o que acho? Os desenhistas poderiam ter feito miséria com toda a tecnologia, grana e disposição que tinham no período. Mas aí veio um roteirista, talvez egresso da publicidade e, abençoado pelos Beatles, bolou aquele script fuleiro...

04/02/2009

Borges, fundamental

Si el sueño fuera (como dicen) una
tregua, un puro reposo de la mente,
¿por qué, si te despiertan bruscamente,
sientes que te han robado una fortuna?

02/02/2009

O boi do sacrifício

O Massote é um homem do verbo. Ligou-me hoje para falar sobre o boi do sacrifício. Entre os tiranos gregos, era comum que pusessem um homem dentro da escultura oca de um bovino, sob a qual ateavam uma fogueira. O sacrificado urrava como boi e aquilo tudo era um entretenimento apresentado em praça pública. O Massote sugere o método para cuidar de determinadas figuras da cena política. Por que não o Sarney?

01/02/2009

30/01/2009

Conversa com o Massote

- Fulano disse que você é muito bom!
- É, Massote, devo ser mesmo. Algo próximo de Deus...
- Você podia se auto-retratar no Olimpo, conversando com Júpiter. Ele te ouvindo...
- Boa, Massote, mas Júpiter ia ter de marcar hora.

26/01/2009

21/01/2009

Entre os judeus, há também posições contrárias ao genocídio perpetrado por Israel. Leiam aqui: http://www.massote.pro.br/?p=363 (Não sei porque, meu "inserir link" não está funcionando.)

19/01/2009

O teto de uma tal de igreja Renascer desabou na cabeça de uns fiéis em São Paulo. Teria sido uma benção de Deus, caso tivesse caído sobre os donos da igreja, notórios larápios e exploradores da boa fé alheia.

18/01/2009

A recente reforma ortográfica da língua portuguesa tem tintas de ficção científica barata. Até ouço o diálogo, numa reunião secreta na ABL, regada a chá com biscoitos: " - Vamos sequestrar uns acentos, exterminar umas consoantes, bagunçar o coreto das paroxítonas, zonear as palavras com acentos diferenciais e estupidificar as regras para as palavras compostas!! Uarrarrarrá!!! Em seguida, botamos o nosso dicionário no mercado, a única fonte segura na confusão que certamente irá reinar. Após esgotarmos todas as edições nos países lusófonos, estaremos prontos para, com a verba arrecadada, prosseguir com nosso plano sinistro de dominar o mundo. Uarrarrarrá!!! Ah, sim, e o mais importante: José Sarney será a única autoridade para dirimir as dúvidas que ainda persistirem!! Uarrárrárrárrárrá!!! Então, aquilo que era apenas ficção científica de má qualidade se aproxima perigosamente do terror nojento...

17/01/2009

Goya

O encontro entre um mestre do cinema e um mestre da pintura só podia resultar numa obra-prima. Goya, de Carlos Saura, mostra que o cinema pode ser algo mais do que apenas um bom roteiro. Pode ser, afinal, conversar com Deus. Aqui, realiza-se aquilo que já fora percebido pelos pioneiros: tudo é imagem. E Saura se esbalda: usa de um colorido sanguíneo para reverberar o Goya gravurista, fazendo do retângulo luminoso um espaço para exercícios de luz e cor. A narração é episódica, não linear, usa e abusa da narração em off, misturando vozes num contraponto feliz. O clima geral é barroco, não há movimentos pernósticos de câmera, a ênfase é para a performance de Francisco Arrabal, magistral. E há também o comentário metalinguístico, no momento em que Goya diz que a arte é o espaço mágico onde tudo é possível. Falava, também, do cinema. Se faltava o grande filme sobre cinema e pintura, aí está. Obrigado, Saura.

14/01/2009

Um texto é um texto e seus leitores. A professora argentina leu a Lección de español aí embaixo e fez umas correções. Sugeriu também que eu tirasse o palavrão ("culo"). Concordo com ela. O palavrão está perdendo a dignidade, já dizia o Nelson Rodrigues. Bem, com isso, desaparece qualquer referência ao Francisco de Quevedo e suas "Gracias e desgracias del ojo del culo". A culpa pela tonteria agora é toda minha.

Personagem em fase teste II

Explicação necessária

Descobri um autor espanhol dos mais interessantes, Francisco de Quevedo, do século XVI. É uma espécie de Rabelais espanhol. Tenho em mãos o "Obras jocosas", de onde tirei inspiração para o texto aí embaixo, sobre o ahn... culo. Fica o registro, portanto. Se alguém não gostar do texto, reclame também com o Quevedo.

13/01/2009

Personagem em fase de teste

Lección de español

Me gusta viajar para el abismo donde culminan las nalgas. Salgo del pico de los pechos, atravieso la planicie de la barriga, pasando por la fisura del ombligo; me quedo allí el tiempo de rehacerme y sigo por la floresta del pubis. De todo el viaje, la travesía por el pubis es la parte más difícil. No pocas veces me pierdo en esta mata de vellos. Muchas veces no me acuerdo de tener que visitar el abismo y me demoro tiempo demás en el húmedo canal de los grandes lábios. !Ah, dulce perdición! !Quiero ahogarme en estas águas! Pero, tengo que seguir viajando, cojo mi barco y en un rato voy a la oscuridad misteriosa. Llego alfin aquí y ya no veo más nada. !Cuantos ignoran la majestad de estas cavernas, cuantos desconocem la belleza de esta cavidad! Aquí, donde no se da el sol, cercado por las murallas de las nalgas, me quedaré tranquilo como un niño, me olvidaré de todo y daré un basta a la arrogancia y a la insensatez de los hombres. Pero, como Jonas dentro de la ballena, me quedaré en oración, porque sé que esto no durará mucho, sé que luego estaré de vuelta en el mundo, luego seré vomitado de aquí como un perro, luego seré devuelto a la tierra seca.

12/01/2009

A Alice Salles deu a dica. Confiram o diário de filmagem de Vicky Cristina Barcelona, do Woody Allen, aqui: www.guardian.co.uk/film/2009/jan/12/woody-allen-vicky-cristina-barcelona. E rolem de rir!

08/01/2009

Só as mulheres

Só as mulheres acreditam em Deus. Só as mulheres querem casar. Só as mulheres discutem a relação. Só as mulheres dizem eu te amo. Só as mulheres ficam de olho no que os homens e as mulheres fazem. Só as mulheres engordam a cada vez que se olham no espelho. Só as mulheres ficam nervosas sem nenhuma razão aparente, cinco ou seis vezes por mês. Só as mulheres sangram e não morrem. Só as mulheres veem novela. Só as mulheres "mandam dinheiro agora". Só as mulheres sabem o quanto um homem é, além de falível, patético.

Uma aí

Woodysincrasias

Do mestre Woody Allen: "O sol é a desgraça da minha existência. Detesto o sol. Destesto de manhã, quando eu acordo. Detesto no verão. É carcinogênico. Estava passeando no parque ontem, e tinha gente por todo lado, que nem na pintura de Seurat. Mas o sol estraga tudo, brilhando em cima daquilo."

07/01/2009

Ônibus

- Pra onde este ônibus vai?
- Ele pega a rua Caetés.
- E depois?
- Vai em direção ao bairro, ou seja, à pqp.

04/01/2009

Sonho estranho

Sonhei com um diálogo entre o Keith Richards e uma groupie, na fila do banheiro...
A groupie: - Tá lembrada de mim...?
Keith: - Ei! Você não é aquela que a banda inteira comeu, numa excursão nos anos 70?
Pano rápido!

29/12/2008

Responda depressa: é possível alguém que faça musculação em acintosas academias escrever algo que se apresente com o nome de literatura? Ou esse alguém é, a priori, um idiota?

Ciência bizarra

Os raios-x e as imagens em movimento foram inventadas à mesma época, no final do século dezenove. Assim como houve projeções de filmes em feiras, cafés-concerto, circos e vaudevilles, os raios-x costumavam ser exibidos nesses ambientes sob o mesmo slogan de "última maravilha da ciência". Nas demonstrações de raios-x, o público era convidado a ver as suas próprias vísceras, sendo grande a procura por esse tipo de atração. Levou algum tempo para descobrirem que a radiação do raio-x podia matar. O inventor do processo, por exemplo, morreu intoxicado, depois de levar a mulher à morte, de tanto tirar-lhe radiografias. Quantos não devem ter sucumbido também ao conferir esse passatempo inocente nas bizarras feiras do século dezenove.

26/12/2008

Anatomia do idiota

Um idiota se define pela sua roupa, pelo seu cabelo: a roupa dele é idiota, o cabelo dele é idiota. Meu vizinho, por exemplo. Deve estar na casa dos 50. Ontem, fez questão de envergar uma bermuda amarela, com motivos em preto, daquelas que terminam pelos joelhos. Era a imagem da idiotia, como a dizer: vejam, ganhei de Natal (esta coisa horrível). O cabelo, meio espetado, penteia para trás. Dá pra notar a tinta. Deve passar horas diante do espelho, a ver se lhe salva alguma qualidade física, pois as morais, perdeu-as todas. Trata-se de um delegado. Ignora o significado da palavra cidadania, com toda certeza. Se mal a conhece, é para resguardar seu “direito” de ser o imbecil que é. A estupidez dele me lembra a de meu ex-cunhado, talvez o maior idiota de que se tem notícia neste mundo de deus. Aquele pedaço d’asno guardava biscoitos e chocolates na geladeira e costumava xingar se alguém os comesse. Era meio gordo, feio como só um idiota consegue ser. Tinha uma verruga no nariz. O nome, Ricardo, também era próprio dos piores idiotas. A calça, sempre no pescoço, atada por um cinto. Camisas pólo, naturalmente. Ouvia muito um entulho musical dos anos 80, o Marillion (na burrice dele, considerava aquela ahn... bosta um "must"). E jogava futebol de salão, como todo bom idiota.

22/12/2008

O golpe final

Gênio é gênio. Capturei esta pérola do Saramago no blog do Massote. Leiam aí.
O golpe final
Dezembro 16, 2008 by José Saramago
O riso é imediato. Ver o presidente dos Estados Unidos a encolher-se atrás do microfone enquanto um sapato voa sobre a sua cabeça é um excelente exercício para os músculos da cara que comandam a gargalhada. Este homem, famoso pela sua abissal ignorância e pelos seus contínuos dislates linguísticos, fez-nos rir muitas vezes durante os últimos oito anos. Este homem, também famoso por outras razões menos atractivas, paranoico contumaz, deu-nos mil motivos para que o detestássemos, a ele e aos seus acólitos, cúmplices na falsidade e na intriga, mentes pervertidas que fizeram da política internacional uma farsa trágica e da simples dignidade o melhor alvo da irrisão absoluta. Em verdade, o mundo, apesar do desolador espectáculo que nos oferece todos os dias, não merecia um Bush. Tivemo-lo, sofrêmo-lo, a um ponto tal que a vitória de Barack Obama terá sido considerada por muita gente como uma espécie de justiça divina. Tardia como em geral a justiça o é, mas definitiva. Afinal, não era assim, faltava-nos o golpe final, faltavam-nos ainda aqueles sapatos que um jornalista da televisão iraquiana lançou à mentirosa e descarada fachada que tinha na sua frente e que podem ser entendidos de duas formas: ou que esses sapatos deveriam ter uns pés dentro e o alvo do golpe ser aquela parte arredondada do corpo onde as costas mudam de nome, ou então que Mutazem al Kaidi (fique o seu nome para a posteridade) terá encontrado a maneira mais contundente e eficaz de expressar o seu desprezo. Pelo ridículo. Um par de pontapés também não estaria mal, mas o ridículo é para sempre. Voto no ridículo.
Publicado em O Caderno de Saramago - blog do escritor

Sapateiros sem fronteiras

Está na hora de criar uma ONG. Não existe a organização anarquista "Confeiteiros sem fronteiras?" Com inspiração nesse modelo, poderia ser fundada a "Sapateiros sem fronteiras", para se atirar sapatos nos governantes que escorreguem no tomate. Pensando bem, acho que ia faltar sapato...

21/12/2008

Jamais, nunca, em hipótese alguma, confuda: literatura de auto-ajuda com literatura.

15/12/2008

12/12/2008

Homens e livros

Adoro sair de um bom livro e entrar em outro tão bom quanto. Terminei "A arte de viajar", um dos melhores que já li, e fui para "Conversas com Woody Allen", que poderia se chamar também "Tudo que você queria saber sobre Woody Allen mas tinha vergonha de perguntar". Extraio dali uma piadinha, contada pelo cineasta, muito elucidativa sobre a vida. O cara chega no psiquiatra e diz: "Doutor, meu irmão está maluco. Ele pensa que é uma galinha." O psiquiatra pergunta: "E por que você não o interna?" E o cara responde: "Porque preciso dos ovos!" É isso. A vida é cheia dessas galinhas. Seus ovos não costumam ser de ouro.

11/12/2008

Vicky Cristina Barcelona

Os filmes do Woody Allen são melhores do que uma boa sessão de psicanálise. Vicky Cristina Barcelona não foge a essa regra e envereda pelas antigas obsessões do cineasta, como as relações entre casais, sempre à beira do fracasso. trata-se de um filme na linha do "Manhattan", "Crimes e pecados" e "Maridos e esposas", na contramão da sua tendência bergmaniana, mais trágica. Eu vinha gostando de todos até aqui, principalmente dos últimos, mais afins com a tragédia do que com a comédia de costumes(destaque para O sonho de Cassandra, talvez o melhor de todos). Vicky Cristina Barcelona é um filme mais leve, mais feminino. O texto revela o mais puro Allen, com todos aqueles diálogos bem escritos, ultra-bem-humorados, meio rasos, mas sempre exemplares de uma certa instabilidade nas relações amorosas. A coisa toda funciona às maravilhas, a trama girando em torno de um quadrângulo amoroso, com aventuras sexuais impensáveis e pitadas de Miró, fotografia, poesia, vinho e pintura abstrata. Não é o the very best of mr. Woody Allen, com certeza, mas é dos grandes. Saí do cinema com a sensação de ter deitado no divã do Freud.

09/12/2008


















Special thanks: Woody Allen
Todo mundo deveria ter algo como um dublê, ou uma segunda vida, sei lá. Uma para ir ao cinema, ver todos os filmes do mundo, beijar as mulheres bonitas, ficar olhando as mudanças da natureza, outra para as coisas chatas, tipo cuidar da burocracia, trabalhar, fazer o orçamento, aprender a dirigir, perder tempo com discussões idiotas, etc. Ah, como seria bom!

06/12/2008

Vejam que da pesada. O vídeo é de um documentário pela paz. Confiram lá: http://www.youtube.com/watch?v=Us-TVg40ExM

04/12/2008

Inscrições para vaga de professor na Escola. A velha senhora:
- Eu sou das antigas. Você formou-se aqui também?
- Sim.
- Em que ano?
- Antes da batalha de Constantinopla. E a senhora?
- Ah, eu sou do tempo em que o Mar Morto ainda estava doente.
- O senhor é o síndico?
- Às vezes...
- E como é morar aqui?
- Olhe, o vizinho ali em frente certa vez quis dar um tiro no ex-morador deste apartamento só porque ele pediu para abaixar o som. De vez em quando, o cara faz um churrasco no quintal dele e a fumaça vem toda pra cá. O pessoal do treze também amola bastante com o som alto e barulhos de sexo. E tem uma vizinha pirada que costuma fazer uns escândalos. Ela arrancou sangue na mãe outro dia. Ah, tem um menino neurótico também, que vive chorando. Mas tirando isso, é um ótimo lugar.
- Anh... já vou indo então.
- Volte depois.
- Não, obrigada.

03/12/2008

Hilário!

Descobri no youtube um vídeo com o Bush cantando "Sunday bloody sunday". Vejam aqui: http://video.google.com/videoplay?docid=6805063692754011230

30/11/2008

O gênio, assim como o demônio, está nos detalhes. "Queime antes de ler" dá sequência à fieira de filmes brilhantes dos irmãos Cohen. Trata-se de uma comédia, como seria mesmo de bom alvitre, depois do realismo cru de "Onde os fracos não têm vez". Estão lá todos os elementos que fazem dos Cohen os melhores diretores hoje em atividade: humor, violência e tramas sinuosas, extremamente bem construídas. Nos detalhes (e isso é o melhor do filme), a crítica mordaz ao modus vivendi americano: uma mulher que quer fazer plástica e lipo, mas o plano de saúde não cobre. Um agente da CIA demitido por alcoolismo que não passa de um idiota (ele é traído pela mulher, que o trai também com um idiota da televisão. O homem que come a mulher do ex-agente da CIA, por sua vez, é um paranóico e viciado em sexo.) O Brad Pitt (finalmente os
Cohen tiveram dinheiro para contratar atores de primeira linha. É o efeito Oscar), imaginem só, é morto pelo cara que come a mulher do agente. (É sensacional matar o Brad Pitt, pensem bem. Nesse caso, ele tem de ser um personagem secundário, anódino, como de fato é, no filme). No final, tudo vira uma tremenda bagunça e a CIA se envolve para "limpar" a sujeira. E os caras da cúpula da CIA balançam a cabeça, falando: "Mas que porra foi que nós fizemos...", à semelhança do final de os "Os fracos não têm vez". É uma comédia sardônica, sem perdão. Merece ainda mais análises.

28/11/2008

27/11/2008

A vida não podia ser bela

É difícil um filme tão errado quanto "A vida é bela", do Roberto Begnini. Por mais que se tente dar um desconto (afinal trata-se de um comediante), nada ali parece fazer sentido: esconder um menino, em pleno campo de concentração? Impossível. Fazer piadinhas com soldados nazistas? Quer morrer, maluco? Onde, exatamente, localiza-se este campo de concentração? Na Alemanha? Na Itália? Se na Alemanha, então como é que tanques norte-americanos foram parar lá? (Seria mais correto se fossem tanques soviéticos). Uma garota, num campo nazista, sem os cabelos raspados? Está ali porque é mulher do diretor... E como é que a vida podia ser bela, em pleno campo de extermínio? Begnini, ator e diretor italiano, não conhece, não viu, os filmes italianos neo-realistas? Quosque tandem, Catilina?! O filme presta um mau serviço ao melhor entendimento da história da Segunda Guerra. Ainda bem que Begnini parou de abordar o assunto.

24/11/2008

Isto é Fassbinder

Fassbinder é um diretor originário do teatro. Por isso, seus planos são longos, a ênfase é para a performance dos atores. Não há paralelismos griffithianos, não há nada que lembre Hollywood. Movimentos de câmera belíssimos mostram um cinema de expressões pesadas, contrastes entre luz e sombra, luzes vagabundas de neons, reflexos de rostos sempre no limite do desespero. Franz Biberkopf continua sua saga pela República de Weimar, alguém que se vê obrigado a aceitar as condições que a vida lhe impõe, em face de um destino trágico. Em dado momento, perde o braço, bestamente, numa cilada armada por bandidos. É assim, sem braço, pobre, alcoólatra e ex-presidiário que enfrenta sua realidade, a realidade de um homem comum. Poderia ser um de nós...

23/11/2008

Berlin Alexanderplatz

Se gosto dessas mulheres desesperadas, desgrenhadas, à beira de um ataque de nervos? Se gosto desses homens estiolados, no limite entre a sanidade asséptica e a loucura como única forma de transitar por um mundo também insano? Se gosto dessa Alemanha expressionista, escura e claustrofóbica, lembrando uma tela de Max Beckman? Berlin Alexanderplatz: 16 horas de êxtase perturbador. Não consigo me identificar com Franz Biberkopf – protagonista do filme –, entretanto, que me parece mais um cidadão comum (naquilo que o cidadão comum também tem de idiota), em busca de inserção numa sociedade que aos poucos se desmorona, a Alemanha do entre-guerras. Ainda não terminei de ver o filme, estou no 6º de 12 episódios. Mais comentários daqui a pouco.

21/11/2008


O amor só é possível entre dois sadomasoquistas.

18/11/2008

17/11/2008

13/11/2008

Dias atrás, sonhei que retalhava um cara, com muita ciência e dedicação. Outra noite, sonhei que estava no centro, pessoas dormiam na calçada, em meio à sujeira, à urina e às fezes. Já ontem, sonhei com mulheres incríveis na minha cama, entre as minhas pernas. Estranho, muito estranho.

11/11/2008

Grande hotel

O roteiro é conhecido: vêm, hospedam-se em sua cabeça, deitam-se em seu corpo, esbaldam-se em seus lençóis. Passado algum tempo, reclamam da mobília, do serviço de quarto, da comida, da decoração do teto, até chegarem ao seu físico de atleta. Pronto: de hotel 5 estrelas, foi reduzido a uma espelunca. Daí se mudam porque queriam um quatro quartos, com vista definitiva, de preferência para o mar. Mas continuam morando de aluguel...

Auto-retrato em meio aos trastes




02/11/2008

Culinária e automobilismo

Fui almoçar feijão tropeiro num boteco aqui perto. Perguntei ao garçom: "Vem com ovo?". Ao que ele ripostou: "Vem completo, com ovo, trava elétrica, holofote traseiro, ar condicionado..." A metáfora não era exatamente persuasiva para quem, como eu, nem ao menos sabe dirigir. Além do mais, se o tropeiro fosse um carro, seria certamente um Fiat 147. Mas valeu pela criatividade do sujeito.

Mais frases para desanuviar (*)

No Brasil, o gene da honestidade é recessivo.

Jamais confunda: natureza-morta com despacho de macumba.

Bebia tanto que não fazia exame de sangue: media o teor alcoólico.

Era um escritor muito pouco original. Sua única grande obra foi um livro de citações.

A fisicultura é a burocracia do corpo.

O dinheiro é o Viagra do intelecto.

Era tão precoce que aos 16 já vivia a crise dos quarenta.

*Estas frases são do final dos anos 90. Junto com outras tantas (pelo menos umas 40), estavam num arquivo que a minha ex-mulher entendeu de deletar sei lá porquê.

01/11/2008

Joy Division

Vamos combinar: eu gosto de rock’n’roll, fazer o quê? Fui ver “Joy Division”, um documentário sobre este grupo de finais dos anos 70 e início dos 80. O diretor mescla a trajetória da banda à história da cidade de Manchester, bombardeada na II Guerra e hoje uma grande e moderna, no bom sentido, cidade inglesa. Há imagens poderosas, como fotografias de como era Manchester nos anos 70: construções horríveis, à maneira de enormes hospitais ou sanatórios dominavam a paisagem. Muitas fábricas, pessoas criadas para não serem mais que operários, degradação: exatamente o cenário vazio de sentido descrito nas letras de Ian Curtis, poeta tresloucado, para lá de deprê e vocalista do Joy Division. Há entrevistas com os outros três membros da banda, com as ex do Ian Curtis e com os criadores da sonoridade industrial dos caras (engenheiros de som, produtores, etc.). Deborah Curtis é um show à parte: linda ainda hoje e inteligente. Foi depois de uma briga com ela e depois de ter visto o filme “Strozeck”, de Werner Herzog, que Ian Curtis deu cabo da própria vida. O filme, em suma, é uma ótima viagem no tempo, de volta ao espírito dos oitenta, dark, pesadão, sufocante, super fim de século. Ouvi as canções do Joy Division, no rádio, somente no final dos anos 80. Naquela época já carregava pra cima e pra baixo um livro de capa totalmente branca, sem título, com as letras do Ian Curtis. Nada muito genial, o filme é somente mais um documentário sobre banda, como há muitos por aí. O detalhe é que foi uma das melhores bandas de todos os tempos. Valeu o ingresso.