
Pílulas sobre cinema, arte, hqs e cartuns, comentários efêmeros, confissões inconfessáveis, movimentos barrocos, delírios, divagações, elucubrações e exibicionismos baratos.
10/06/2008
06/06/2008
Recuerdos de Guarapari
04/06/2008
Vampyr
Querem um filme realmente estranho? Vampyr (1931), do Carl Dreyer. Pesadelo surrealista é pouco para defini-lo. Causou um colapso nervoso no diretor, que demorou para se recuperar do fiasco de bilheteria. O filme também conduziu seus produtores à falência. Quanto ao público, ninguém entendeu absolutamente nada. Muitos continuam sem entender...
Livros do mal
Há livros que modificam a vida das pessoas, e isso não é um clichê para vender best-sellers de auto-ajuda. Para o bem e para o mal (o que quer que seja bem e mal), determinadas obras são capazes de nos influenciar tão profundamente que nos esquecemos até mesmo de nossas referências anteriores. A tela demoníaca, de Lotte Eisner, que li em 2003, por exemplo, marcou decisivamente o meu modo de desenhar e de ver o mundo. Depois desse livro, passei de um traço underground (eu me gabava disso, vejam só) a um expressionismo dos mais sinistros. A tela demoníaca, como se sabe, é um clássico sobre o cinema expressionista do pós-guerra alemão. Nele, Eisner desvela a atmosfera que produziu um dos mais radicais estilos cinematográficos de todos os tempos. É um livro feito de augúrios, pesadelos, emanações mefíticas, visões de horror, de loucura, de morte e de desespero. É a anti-auto-ajuda por excelência, são as entranhas da alma alemã, mostradas com expressividade elevada ao seu grau máximo. Nunca mais fui o mesmo depois desse livro. Pior: na sequência ainda devorei De Caligari a Hitler, do Siegfried Kracauer, e As sombras móveis, do Luiz Nazário: deu no que deu. Quem avisa amigo é, não leiam esses livros!
02/06/2008
28/05/2008
Sexo e TV em cores
Homem do século passado, lembro-me perfeitamente da chegada – um tanto atrasada – da TV em cores à casa dos meus pais, nos idos de 1980: o fato teve conseqüências profundas no contexto familiar. Em pouco tempo, o aparelho tornou-se o centro das atenções; a TV antiga, em preto-e-branco, foi rapidamente descartada, e a programação passou a ser esquadrinhada pela minha mãe. O tubo catódico ganhou uma inédita carga erótica: ligá-lo significava ter acesso, principalmente à noite, a um mundo repleto de promessas sexuais. Não que não houvesse erotismo antes da cor. O problema é que, em cores, tudo parecia incrivelmente mais lúbrico e sensual. E quanto mais a minha mãe tentava controlar o monstro que ela mesma criou, maior tornava-se o nosso interesse pelas imagens. A cena inocente de uma garota fazendo piquenique na grama, por exemplo, surgia incrivelmente picante. Anúncios de lingerie e de desodorante feminino pareciam mais calientes do que nunca. Beijos de novelas eletrizavam a nossa imaginação, causando-nos sucessivas noites mal-dormidas. A correta e salutar prática do onanismo em nossa família, em suma, deve muito ao advento da TV colorida.
26/05/2008
5 dias entre sol e mar
A vida pediu uma pausa, e zarpei com o Roni e o Eugênio para Guarapari. Éramos três cavaleiros combalidos por muitas lutas inglórias em busca de lavar a alma nas águas do mar. Água de côco, cerveja, moqueca e camarão foram a tônica, com espaço também para alguma ostra. O destaque foi um almoço na Cantina do Curuca, um restaurante enorme, só com mulheres atendendo e cozinhando, perto de Meaípe. No cardápio, bobó e rizoto de camarão. Show!
17/05/2008
Amor e ódio no cinema
Tarkovski odiava Eisenstein, que odiava Dziga Vertov, que odiava Pudovkin, que amava Griffith, também amado por Hitchcock, por sua vez odiado por Orson Welles, visceralmente amado por Godard, que também amava Rosselini e Samuel Fuller, à mesma intensidade que Nicholas Ray, que tinha ódio mortal de Hitchcock, muitíssimo amado por Truffaut, amante também de Cassavetes e de Fritz Lang, que não amava absolutamente ninguém.
16/05/2008
Frase filosófica do dia
Do meu grande amigo Roni Miranda: "Nada está tão ruim que não possa piorar".
15/05/2008
Sorria, você está sendo bisbilhotado
Ao saber da invenção das máquinas xerox, o primeiro-ministro italiano Julio Andreotti - notório mafioso, entre outras virtudes - fez o diagnóstico: haviam se acabado os segredos de estado. A frase cai como uma luva para os dias atuais. Não há nada na internet hoje que não seja de conhecimento amplo e generalizado. Tudo, virtualmente, pode ser armazenado em algum lugar e visto por outras pessoas, até as mensagens mais íntimas e pessoais. Mas quem está interessado em tanta bobagem?
14/05/2008
Vai-se Rauschenberg
Um minuto de silêncio para Robert Rauschenberg, papa da pop art - ao lado de Andy Warhol, Roy Lichtenstein, Tom Wesselmann e outros grandes -, falecido ontem aos 82 anos. Rauschenberg contribuiu para modificar o panorama das artes plásticas em meados do século vinte, incorporando signos urbanos, trastes da indústria de consumo e materiais os mais diversos às suas assemblages. Tive oportunidade de conferir os trabalhos dele numa bienal em São Paulo. Era muito, muito bom.
13/05/2008
Bauhaus rides again
Li na Folha que o Bauhaus voltou, mais gótico do que nunca! Pensei que os caras tivessem morrido, com aqueles excessos todos, ou trocado o sangue e se tornado senhores gordos e respeitáveis!! Ainda ontem estava ouvindo Who killed mister moonlight?: “All our dreams have melted down / We’re hiding in the bushes / From dead man doing Douglas Fairbanks stunts / All our stories burnt / our films lost in the mushes / We can’t paint any pictures as the moon had all the brushes / Extracting wasps from stings in flight / Who killed mister moonlight?” Estou curioso para saber como a banda está hoje.
12/05/2008
Roma, cidade aberta
Roma, cidade aberta (Rosselini, 1945) está para o cinema assim como a Guernica está para a arte moderna. Filme e pintura são não apenas emblemáticos de um período na história do século vinte, mas também marcos sagrados do que de melhor a humanidade já produziu em matéria de arte. É impossível ver o filme sem se emocionar. Escrevo e já me debulho em lágrimas, ao me lembrar da história, baseada na trajetória de personagens que integraram a resistência – houve uma – ao nazi-facismo italiano. Falar mais seria cansar as palavras. Ou matar o filme. Vá e veja.
10/05/2008
Ranking dos bares
Sobe
Patorroto (Prado)
Tira-gosto: nota 7 (muito criativo o prato “aquarela brasileira”); atendimento: nota 7 (os garçons não se esforçam muito em ser simpáticos); banheiro: nota 6 (limpo e seco, graças a Deus). Ponto fraco: as mesas ficam na calçada e na rua, for God sake!
Bar do Doca (Gutierrez)
Tira-gosto: nota 8 (o torresmo estava duro); atendimento: nota 9 (o cara que verifica as mesas vagas é legal); banheiro: nota 7. Tem um boteco vizinho, muito bom também, com chorinho ao vivo e tudo mais.
Patorroto (Prado)
Tira-gosto: nota 7 (muito criativo o prato “aquarela brasileira”); atendimento: nota 7 (os garçons não se esforçam muito em ser simpáticos); banheiro: nota 6 (limpo e seco, graças a Deus). Ponto fraco: as mesas ficam na calçada e na rua, for God sake!
Bar do Doca (Gutierrez)
Tira-gosto: nota 8 (o torresmo estava duro); atendimento: nota 9 (o cara que verifica as mesas vagas é legal); banheiro: nota 7. Tem um boteco vizinho, muito bom também, com chorinho ao vivo e tudo mais.
09/05/2008
Vertov
De todos os visionários (re)inventores do cinema, um dos que mais gosto é Dziga Vertov. Na década de 20, lançou um manifesto atrás do outro, todos perpassados de inflamado espírito moderno. Quem não se lembra do "Cine-olho", que gerou a reação do Eisenstein, propondo o "Cine-punho"? Revolucionário engajado, Vertov pensava o cinema como um meio instituído da missão suprema de revelar a realidade. Detestava a ficção, considerando-a, como a igreja, mais um dos ópios do povo. Para Vertov, o documentário seria o gênero adequado para construir o novo homem socialista. Não foi muito levado a sério na época, mas hoje seu filme "Um homem com a câmera" está entre as melhores coisas que o cinema já produziu. (Depois transcrevo uns trechos do interessantíssimo "Manifesto dos Knoks".)
07/05/2008
05/05/2008
Sobe, com reservas
Charlotte (Santa Tereza)
Banheiro: nota 0 (não tem, é preciso ir ao do bar ao lado, que é um buraco aberto no subsolo); tira-gosto: nota: 1 (parece que a fritas - sic - tem queijo); atendimento: não me lembro, estava bêbado. Podia ser um pusta bar legal, considerando-se os (as) frequentadores (as). Sério incoveniente: as mesas ficam na calçada e na rua. Vai pra zona de rebaixamento, com chances de subir de posição durante o campeonato.
Banheiro: nota 0 (não tem, é preciso ir ao do bar ao lado, que é um buraco aberto no subsolo); tira-gosto: nota: 1 (parece que a fritas - sic - tem queijo); atendimento: não me lembro, estava bêbado. Podia ser um pusta bar legal, considerando-se os (as) frequentadores (as). Sério incoveniente: as mesas ficam na calçada e na rua. Vai pra zona de rebaixamento, com chances de subir de posição durante o campeonato.
04/05/2008
O sonho de Cassandra
O sonho de Cassandra tem uma trama em certos pontos até previsível. Porém, o modo como Woody Allen conduz o filme é magistral. Num roteiro bem trabalhado, Allen lembra Billy Wilder em Pacto de sangue (1944), fazendo com que o espectador se identifique com os protagonistas e torça por eles quando se tornam assassinos. Alguém ainda encarna a ética, num mundo onde só parece haver corruptos: é o irônico pai, alter ego de Allen. A punição vem rápido, num desfecho nada trivial, na forma da auto-destruição dos personagens centrais. Allen está velho e cada vez mais corrosivo: por pouco, não se trata de um filme noir.
Ranking dos bares de BH
Sobe
Estabelecimento (Serra)
Banheiro: nota 5; atendimento: nota 10; tira-gosto: nota 10. A casa anda cheia devido ao Comida de Buteko, que lota demais o bar. Mas o ambiente, a decoração e os atendentes são muito simpáticos.
Chefe Túlio (Sagrada Família)
Banheiro: nota 7; atendimento: nota 6; tira-gosto: nota 8. É o ambiente mais agradável de Belo Horizonte, em plena Santa Tereza, numa esquina que lembra a de um bulevar parisiense.
Desce
Cartola (Caiçara)
Banheiro: nota 1; atendimento: nota 2; tira-gosto: nota 2. Tradicional reduto do samba, o Cartola fica lotado aos sábados. Porém a direção não investe em mais conforto para os clientes. Aqui, o negócio é dançar ou dançar.
Charles (Savassi)
Banheiro: nota 3 (só entra de canoa); atendimento: nota 3 (garçons mal-humorados); tira-gosto: nota 7 (o mexido é uma boa pedida). A música alta atrapalha quem gosta de uma boa conversa.
Western House (Centro)
Banheiro: não conferi; atendimento: nota 0; tira-gosto: nota 0 (fritas e boi picado, no one deserves!). Talvez o pior bar de Belo Horizonte: som alto, clientes bregas, decoração brega, música brega. Fuja correndo.
Estabelecimento (Serra)
Banheiro: nota 5; atendimento: nota 10; tira-gosto: nota 10. A casa anda cheia devido ao Comida de Buteko, que lota demais o bar. Mas o ambiente, a decoração e os atendentes são muito simpáticos.
Chefe Túlio (Sagrada Família)
Banheiro: nota 7; atendimento: nota 6; tira-gosto: nota 8. É o ambiente mais agradável de Belo Horizonte, em plena Santa Tereza, numa esquina que lembra a de um bulevar parisiense.
Desce
Cartola (Caiçara)
Banheiro: nota 1; atendimento: nota 2; tira-gosto: nota 2. Tradicional reduto do samba, o Cartola fica lotado aos sábados. Porém a direção não investe em mais conforto para os clientes. Aqui, o negócio é dançar ou dançar.
Charles (Savassi)
Banheiro: nota 3 (só entra de canoa); atendimento: nota 3 (garçons mal-humorados); tira-gosto: nota 7 (o mexido é uma boa pedida). A música alta atrapalha quem gosta de uma boa conversa.
Western House (Centro)
Banheiro: não conferi; atendimento: nota 0; tira-gosto: nota 0 (fritas e boi picado, no one deserves!). Talvez o pior bar de Belo Horizonte: som alto, clientes bregas, decoração brega, música brega. Fuja correndo.
02/05/2008
Tem um colega fazendo o que considero o desafio supremo de um desenhista: ilustrar o Quixote. E em quadrinhos! É o Biradantas, companheiro da revista Front. Pelo que já vi dos desenhos, será uma obra-prima. E o estilo do Bira casou muito bem com a proposta, dando ao livro de Cervantes uma roupagem moderna e bem-humorada. Avante e parabéns, grande Bira! Confiram no blog dele: http://domquixotehq.blogspot.com/
29/04/2008
27/04/2008
Sonhei que estava nas ruas do Centro. Deixei minha pasta em um estacionamento de motos ou coisa parecida e fui ao cinema. Quando voltei, encontrei a pasta, mas o seu conteúdo havia sido roubado. E o que havia na pasta? Tubos e frascos de tinta. O inconsciente funciona por metáforas e não sei o que o sonho pode significar. O que quer que seja, me causa alguma estranheza. Apenas isso.
25/04/2008
21/04/2008
Apenas uma vez
Once (Apenas uma vez) é mais um musical com roupagem nova. A trajetória de um cantor (chato) para formar uma banda (chata) e fazer sucesso serve de pretexto ao filme, que adota um estilão mais “realista”, à diferença de outros que comentei aí embaixo. Tomadas de câmera tremidas, cenas meio escuras, o filme segue a cartilha atual do que se entende hoje por realismo, sem a radicalidade de um, digamos, Robert Bresson, afinal, precisamos faturar. Então o rapaz encontra a garota, mas ambos estão ligados a relacionamentos antigos e não querem rompê-los. Cada um com a sua dor, eles estão empenhados mesmo é em fazer música, o que rendeu ao filme um Oscar de melhor canção (chata). Não quero cobrar verossimilhança a um filme como esse, mas, a certa altura, a moça pobre, em cuja casa vizinhos pobres e imigrantes vêem televisão, aluga nada menos que um estúdio para gravarem um CD. O final, pelo menos, evita o clichê: o cara volta para a ex, e a moça volta para o maridão. A banda, porém, acabará fazendo sucesso, como deve ser num musical (chato).
18/04/2008
17/04/2008
Esse é punk!
Pensei que eu fosse revoltado (é claro, passei dessa fase, agora eu quero mais é ser inserido). Mas deêm uma conferida no gajo: http://vagabundoeburro.blogspot.com/
16/04/2008
Porque odeio o Orkut
Deu na Folha: "o Ministério Público computou 56 mil denúncias de pedofilia nos últimos dois anos. Mais de 80% delas envolvem o serviço de relacionamentos Orkut. (...) Alguns exploradores da pedofilia encontram no Orkut uma ferramenta para instituir clubes virtuais de perversão." Vade retro, tesconjuro!
14/04/2008
Hitch
Para Hitchcock, cinema deve ser sinônimo de eficiência. É a partir dessa eficiência que extrai o máximo para galvanizar a relação filme-espectador, a qual o velho mestre considera o fim último da atividade de um diretor. Num set de filmagem, portanto, atores devem limitar-se a cumprir as determinações ditadas pela seqüência das tomadas de câmera: “atores são como gado”, disse certa vez. Ao rodar um filme, a narração e a fidelidade ao roteiro são a prioridade máxima do cineasta. Aqui, a ação narrativa se desenvolve preferencialmente através da imagem: original do período mudo, Hitchcock sabe que é a imagem quem dita o curso dos acontecimentos, mantendo o espectador informado de tudo quanto se passa no filme, auxiliando-o a compreender a trama. É por aí, finalmente, que se produz o tão celebrado suspense, resultado da emoção gerada no espectador através da montagem dos planos.
10/04/2008
Bispo
Não sei há quanto tempo estou aqui.
No início, cheguei a pensar que estivesse de fato louco.
Hoje, entendo as razões dos homens para me prender.
Transito na linha de tangência entre lucidez e loucura.
Com fio e agulha, reconstruo o mundo ponto por ponto.
Sou um funcionário, antes de mais nada.
Registro o que vejo em minha jornada sobre a Terra.
Elaboro a lista de todos os engenhos humanos,
Costuro o manto das coisas fantásticas, fabulosas, sagradas e bizarras.
Refabrico a galáxia, com seus milhões de estrelas,
planetas, asteróides, nuvens noctulescentes, poeiras,
corpúsculos, nebulosas e buracos negros.
Leio o livro que contém todos os outros.
Escrevo o livro de areia, passo ao mundo dos espelhos.
Nomeio os bichos que entrarão na minha arca.
Tudo que existe e que se move viajará comigo,
rumo ao encontro final com Deus.
Porque d’Ele recebi esta missão.
A missão de reunir as coisas que andavam dispersas ou expatriadas.
O basilisco, os dragões, os macacos, os pássaros de fogo,
a corda dos enforcados, a navalha do barbeiro, a cadeira dos réus,
o ringue dos pugilistas, a proa dos navios, o baton das prostitutas,
os caquinhos do muro, as canecas, as congas dos internados,
a cama, o penico, os aviões, os pássaros, a flor, os amores insepultos,
as garrafas de pinga e de cerveja, o chicote, os tênis, os carros, as bicicletas,
a torneira, em seu capricho industrial, as muitas noites indormidas,
os males do corpo e da mente, os instrumentos, as ferramentas,
as músicas, as mulheres que amei, os homens que não conheci,
tudo isso estará comigo no paraíso.
Vou tecendo com agulha e linha, que retiro de guarda-pós,
Também as palavras – todas as palavras – que dão sentido à vida,
pois elas são, enfim, a vida mesma, em estado latente.
Para uns, isto é substituir Deus. Para mim, é servir Deus.
Afinal, eu sou o Bispo, Arthur Bispo do Rosário,
Senhor do infinito e dos labirintos, escrivão do universo,
arquiteto das pirâmides, das odisséias, dos colossos,
das estátuas e dos monumentos, bibliotecário de Babel,
fundador de Orbis, Tertius e Uqbar, irmão de Funes, o memorioso,
urdidor das preces, das poesias e dos milagres não concretizados,
fabulador de todas as histórias, lidas ou não lidas,
ouvidas ou olvidadas, contadas ou não contadas.
E não sairei de dentro dessas quatro paredes, enquanto não terminar esta obra.
No início, cheguei a pensar que estivesse de fato louco.
Hoje, entendo as razões dos homens para me prender.
Transito na linha de tangência entre lucidez e loucura.
Com fio e agulha, reconstruo o mundo ponto por ponto.
Sou um funcionário, antes de mais nada.
Registro o que vejo em minha jornada sobre a Terra.
Elaboro a lista de todos os engenhos humanos,
Costuro o manto das coisas fantásticas, fabulosas, sagradas e bizarras.
Refabrico a galáxia, com seus milhões de estrelas,
planetas, asteróides, nuvens noctulescentes, poeiras,
corpúsculos, nebulosas e buracos negros.
Leio o livro que contém todos os outros.
Escrevo o livro de areia, passo ao mundo dos espelhos.
Nomeio os bichos que entrarão na minha arca.
Tudo que existe e que se move viajará comigo,
rumo ao encontro final com Deus.
Porque d’Ele recebi esta missão.
A missão de reunir as coisas que andavam dispersas ou expatriadas.
O basilisco, os dragões, os macacos, os pássaros de fogo,
a corda dos enforcados, a navalha do barbeiro, a cadeira dos réus,
o ringue dos pugilistas, a proa dos navios, o baton das prostitutas,
os caquinhos do muro, as canecas, as congas dos internados,
a cama, o penico, os aviões, os pássaros, a flor, os amores insepultos,
as garrafas de pinga e de cerveja, o chicote, os tênis, os carros, as bicicletas,
a torneira, em seu capricho industrial, as muitas noites indormidas,
os males do corpo e da mente, os instrumentos, as ferramentas,
as músicas, as mulheres que amei, os homens que não conheci,
tudo isso estará comigo no paraíso.
Vou tecendo com agulha e linha, que retiro de guarda-pós,
Também as palavras – todas as palavras – que dão sentido à vida,
pois elas são, enfim, a vida mesma, em estado latente.
Para uns, isto é substituir Deus. Para mim, é servir Deus.
Afinal, eu sou o Bispo, Arthur Bispo do Rosário,
Senhor do infinito e dos labirintos, escrivão do universo,
arquiteto das pirâmides, das odisséias, dos colossos,
das estátuas e dos monumentos, bibliotecário de Babel,
fundador de Orbis, Tertius e Uqbar, irmão de Funes, o memorioso,
urdidor das preces, das poesias e dos milagres não concretizados,
fabulador de todas as histórias, lidas ou não lidas,
ouvidas ou olvidadas, contadas ou não contadas.
E não sairei de dentro dessas quatro paredes, enquanto não terminar esta obra.
09/04/2008
Ferro velho blues
Volto ao ar insalubre das ruas sem saída.
Errei por aqui muita vez em busca de mim mesmo.
De tudo, guardei apenas cicatrizes e incertezas.
Olhos e mente sobrecarregados.
Vi o suficiente, vivi o suficiente.
Fiz parte da canalha. Apertei mãos viscosas, beijei faces obesas.
Senti a lâmina fria da mentira e do orgulho.
Chamado de ridículo, cínico e hipócrita,
Agradeci os elogios e rumei em sentido contrário.
Cheguei a pensar que houvesse tempo.
Mas os relógios estão parados, as horas estão paradas.
Como um navio em naufrágio, posso sonhar que ainda vivo.
Mas já é tempo de partir.
Cometi outros, além dos versos da juventude. Este poema (imperdoável) é de 2005, por aí. O sentimento não mudou. A poesia incerta, meio fajuta, também não.
Errei por aqui muita vez em busca de mim mesmo.
De tudo, guardei apenas cicatrizes e incertezas.
Olhos e mente sobrecarregados.
Vi o suficiente, vivi o suficiente.
Fiz parte da canalha. Apertei mãos viscosas, beijei faces obesas.
Senti a lâmina fria da mentira e do orgulho.
Chamado de ridículo, cínico e hipócrita,
Agradeci os elogios e rumei em sentido contrário.
Cheguei a pensar que houvesse tempo.
Mas os relógios estão parados, as horas estão paradas.
Como um navio em naufrágio, posso sonhar que ainda vivo.
Mas já é tempo de partir.
Cometi outros, além dos versos da juventude. Este poema (imperdoável) é de 2005, por aí. O sentimento não mudou. A poesia incerta, meio fajuta, também não.
Quem tem tempo de ler blogs?
Neófito nesta área, percebo que existe perto de um zilhão de blogs na internet. Quem tem tempo de ler tudo isso, mesmo que sejam apenas os de sempre, na listinha dos favoritos?
07/04/2008
04/04/2008
Nietzche, atualíssimo
"...certamente far-se-á bem em separar o suficiente o artista de sua obra para não levá-lo tão a sério quanto a obra. Ele é, decididamente, apenas a condição principal, o seio materno, o húmus, em certos casos, o adubo, o estrume sobre o qual ela brota." Em Genealogia da moral
Você sabia?
Que Pasolini foi co-roteirista de Noites de Cabíria, um dos primeiros filmes de Fellini? Que o grande maestro de Rimini (lê-se "Rímini"), por sua vez, foi assistente de direção em alguns filmes de Rosselini? Que François Truffaut participou da elaboração do roteiro de Acossado, de Jean Luc Godard?
03/04/2008
Greed
Pertenço ao reduzido grupo de privilegiados a ter pousado os olhos em Greed (EUA,1925), de Eric von Stroheim. O filme foi lançado unicamente em LD, há coisa de uns 15 anos, quando essa mídia era caríssima. Para mim, Greed está entre os 10 melhores filmes de todos os tempos; sua versão original teve cerca de 10 horas de duração e foi vista por uma platéia seleta. A cópia lançada comercialmente na época foi editada pelo produtor Irving Thalberg, que "mutilou" o filme, segundo Stroheim, reduzindo-o para 4 horas. Ao ver o resultado, Stroheim amaldiçoou Thalberg e pediu as contas na MGM. Para a indústria, terminou marcado como “artista”, amargando um injusto esquecimento após o advento do filme sonoro. Como bem disse o Gilles Deleuze, “a história do cinema é um grande martiriológio”. Em tempo: por enquanto, não há previsão de distribuição do filme em formato dvd.
01/04/2008
Foucault
Foucault (pronuncia-se "fucô") é um dos meus pensadores preferidos. Vejam o que ele diz para contestar a idéia (metafísica) de que o homem possui uma faculdade superior, suficiente para revelar a verdade sobre todas as coisas: "Não podemos dizer: o homem é isto ou aquilo. O homem não pára de mudar, e não sabemos do que é capaz." O pensamento foucaultiano foi acompanhado também da ação política, e ele enfrentou a polícia em várias ocasiões. E o que ele diz sobre a coragem? "...só existe a coragem física, a coragem é sempre um corpo corajoso." Há muito ainda de e sobre Foucault. Aguardem para breve.
31/03/2008
O cinema sujo de Cassavetes
Antípoda do artifício, o cinema de Cassavetes quer a realidade: quanto mais “real”, melhor. Daí que as suas tomadas mal filmadas, seus planos deselegantes fazem todo sentido para quem interessa-se mais pelo discurso. Em interpretação magistral, Ben Gazarra conduz Morte de um bookmaker chinês para revelar o submundo de uma boate de strip-tease. É um filme sujo, de baixo orçamento, mas eficiente em mostrar algo da realidade norte-americana que o cinemão oficial teima em esconder.
Across the universe
O musical não morreu. Está vivíssimo, por exemplo, no recente Across the universe, de Julie Taymor, e a cada vez que alguém procura homenagear o gênero, até no que ele tinha de chato. Across the universe traz uma releitura de clássicos do repertório Beatle, de maneira despojada e carregando nas tintas do artifício. O resultado é um longa videoclípico, com algumas seqüências inspiradas no grande Busby Berkeley. A história parte de um pretexto bobinho e adolescente: rapaz working-class inglês encontra garota americana loira e linda. Se o roteiro não traz nada que se aproveite, os atores também não convencem: em vozes agudas e anasaladas desfiam, para desespero dos ouvidos, grandes clássicos dos Beatles. Para completar o espetáculo kitsch, dá-lhe excesso de raccords, câmeras lentas e exagero de recursos climáticos.
27/03/2008
Histórias de vida
Encontrei o velho amigo no Maletta. Entre umas e outras, contou ter sido deixado pela mulher, que não queria largar a coca. Deprimido e sem dormir, ele tomou três cartelas de Rivotril. Ainda insone, tomou mais três de Dramin e ligou pro Samu, que explicou não atender casos de suicídio. Foi acordar três dias depois, já no hospital, os médicos fazendo a curetagem.
***
A distinta senhora veio preencher o cadastro do condomínio. Paraense, largou o marido lá para vir cuidar do filho, que faz faculdade e mora sozinho. Visivelmente deprimida, contou, às lágrimas, não ter se adaptado à cidade. Acha tudo e todos muito estranhos. Respondi que moro aqui desde que me entendo por gente e acho a mesma coisa: BH não é para amadores.
***
O amigo me ligou dizendo que vai tocando seu barquinho a vapor. Dores na coluna, infecção urinária, fígado em petição de miséria: é o saldo do divórcio, após vinte anos de casado. Ao consultar-se, o médico, outro separado, disse a ele ser esta a pior experiência que alguém pode passar. Receitou-lhe acupuntura, cerveja sem álcool e outra mulher.
***
Dada a crises psicóticas, a velha senhora foi à igreja Universal. Os pastores viram-na frágil e entenderam de tirar-lhe o demo. Ela diz que foi curada de um problema qualquer nos rins e que agora quer curar-se de um nódulo no pescoço. Vale tudo para evitar as cirurgias pelo SUS.
***
A distinta senhora veio preencher o cadastro do condomínio. Paraense, largou o marido lá para vir cuidar do filho, que faz faculdade e mora sozinho. Visivelmente deprimida, contou, às lágrimas, não ter se adaptado à cidade. Acha tudo e todos muito estranhos. Respondi que moro aqui desde que me entendo por gente e acho a mesma coisa: BH não é para amadores.
***
O amigo me ligou dizendo que vai tocando seu barquinho a vapor. Dores na coluna, infecção urinária, fígado em petição de miséria: é o saldo do divórcio, após vinte anos de casado. Ao consultar-se, o médico, outro separado, disse a ele ser esta a pior experiência que alguém pode passar. Receitou-lhe acupuntura, cerveja sem álcool e outra mulher.
***
Dada a crises psicóticas, a velha senhora foi à igreja Universal. Os pastores viram-na frágil e entenderam de tirar-lhe o demo. Ela diz que foi curada de um problema qualquer nos rins e que agora quer curar-se de um nódulo no pescoço. Vale tudo para evitar as cirurgias pelo SUS.
25/03/2008
Hitchcock por Godard
O cinema de Godard é talvez a melhor antítese do de Hitchcock. Isso não impediu Godard de prestar reverência ao mestre da eficiência, em sua História(s) do cinema. Nesse sentido, Hitchcock seria aquele que "foi bem-sucedido no ponto em que Júlio César, Napoleão e Hitler fracassaram: exercer o controle sobre o universo". Assino embaixo.
24/03/2008
John Cassavetes
Jazz, externas, relações interraciais, improvisação de atores, existencialismo: tudo isso no filme Sombras, de fins dos anos 1950. Um maravilhoso exemplo de como um visual tosco e despojado (para padrões hollywoodianos) pode se tornar estilo. Não admira Godard colocar John Cassavetes entre os melhores diretores americanos daquela fase. Cassavetes era o cara!
23/03/2008
Não estou lá
Todo mundo conhece os casos famosos de Bob Dylan nos anos 60: apresentou maconha aos Beatles, foi cantor de folk, barbarizou seus fãs ao montar uma banda de rock’n’roll, uniu-se a Joan Baez em canções de protesto, visitou Woody Guthrie antes de o bluesman branco morrer, converteu-se ao cristianismo nos anos 70, etc.. O que o diretor Todd Haynes faz em Não estou lá é alinhavar esses casos de forma que, em cada um deles, Bob Dylan seja encarnado por um ator diferente. As histórias contadas pelo filme não têm qualquer pretensão documental, sendo assumidamente fantasiosas. O resultado é interessante no que procura dar à montagem um ritmo musical, pontuado pela atuação dos diversos Dylans. Com isso, Não estou lá foge à narrativa linear, optando por uma narração fragmentada, opção adequada a um filme que evita a seriedade. O melhor dos episódios é sem dúvida o vivido por Kate Blanchet, irretocável e completamente blasé no papel do bardo norte-americano. Os grandes clássicos de Dylan também marcam presença, de Visions of Joana a Like a rolling stone, o que compensa a ida ao cinema, já que o filme não chega a ser essencial.
22/03/2008
Em Paris
A velha e boa escola francesa de cinema ainda gera bons frutos. Em Paris começa com o narrador lançando a pergunta: pode o amor levar alguém a pular da ponte? O que se verifica no restante do filme é uma resposta afirmativa, expressa pela trajetória de rapaz que, separado, tenta curar-se da depressão pós-rompimento. Um flash back traz o rapaz como refém do amor de sua mulher, que decide os destinos do casal (assim costuma acontecer). Tem-se uma cena de sexo, e a mulher dirige ao partner a pergunta fatídica: por que você sempre toma banho depois de transar comigo? Ela mesma dá a resposta, explicando que seria pelo fato de o rapaz não querer misturar-se ao suor dela, pois a considera suja. Logo, ele não a ama mais e nada haveria a fazer diante disso, a não ser separar. O filme, em suma, trafega pelo binômio sujeira/limpeza para discorrer sobre os caminhos e descaminhos das relações humanas, levando a pensar que amar, afinal, deve ser exatamente sujar-se, lambuzar-se no outro...
20/03/2008
Rambo com botox
O rosto de Sylvester Stallone não foi o único a ter recebido botox para o remake Rambo IV. O roteiro deste ícone da violência nos anos 80 também levou doses cavalares da substância, buscando inflar um argumento já flácido, originalmente criado para justificar o belicismo reaganista. Estica daqui, puxa dali e o resultado é parecido com um bolo ao qual se acrescentou muito fermento. No plot, o sul da Ásia é uma terra de povos rústicos e ignorantes. Grupos rebeldes instauram o caos, matando mulheres e crianças. Os americanos estão lá para fazer o bem, mas são sequestrados pelos rebeldes. Resta a Rambo empunhar a metralhadora e liquidar, sozinho, um exército de asiáticos, a exemplo do que fez com os vietnamitas no segundo episódio da série, para resgatar os americanos. Só que os tempos são outros, e a ação de Bush no Iraque, por exemplo, sofre críticas severas também nos EUA: se Rambo pela quarta vez e com um recauchutado Stallone soa ridículo hoje, também é pra lá de pífio o argumento sobre o qual o filme procura se sustentar. A curiosidade mórbida, porém, leva-me a ver o filme, que mostra o incrível trabalho do tempo, do botox e da cirurgia plástica sobre a imagem mutante de Stallone.
Ladrões de bicicleta
Na Itália do pós-guerra, colador de cartazes de cinema tem a bicicleta roubada e é impedido de trabalhar. O resto do filme gira em torno da busca obstinada do homem pela bicicleta, que metaforiza a passagem para uma vida melhor: sem ela, não há hipótese de futuro. A grande metáfora de Ladrões de bicicleta (1948), entretanto, está nas ruas, que De Sica filma de maneira magistral. Por aqui, circulam as almas esfoladas do que sobrou da Itália, finda a 2º Guerra. É por aqui também que vão transitar os desejos e aflições do povo, mantido a uma distância de segurança pelo cinemão de estúdio, hegemônico àquela altura. Atores não-profissionais, externas, luz natural: o neo-realismo quer a vida lá fora, quer o homem comum nas telas, com tudo que tem de simples e de complexo. Convidado a entrar, o povo gostou e foi ficando: o cinema nunca mais seria o mesmo a partir dali.
19/03/2008
Samuel Fuller em "Acossado"
Na certa, o ilustrado leitor deste blog já terá visto "Acossado", de Godard, ainda que não o considere, como eu, um dos melhores filmes de todos os tempos. Nesse caso, deve se lembrar de uma sequência na qual um escritor pra lá de cínico entrevista-se com repórteres à sua chegada em Paris. Este escritor é o Samuel Fuller, diretor norte-americano de quem falei num post aí embaixo! Vale a pena rever o filme só para ouvir as declarações do personagem, em palavras que Godard pôs em sua boca para ilustrar o que ele mesmo (Godard) pensava de literatura e cinema. Mais adiante, reproduzirei o texto aqui. Aguardem.
18/03/2008
17/03/2008
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